Respeite a Geografia!
Minha alucinação por geografia é coisa antiga. Mas muito antiga e muito besta. Ainda pequeno, eu já me fechava no quarto pra bolar milhares de fórmulas e campeonatos envolvendo os times do meu país fictício, a Flândria, e ainda inventava as cidades e os mapas da mesma nas últimas páginas dos cadernos da escola. A paixão doentia foi se desenvolvendo. Lembro das viagens noturnas de 10, 11 horas com a familia para Santa Catarina, quando vencia o sono à todo custo para ver a paisagem, as cidades, as placas. E um CD veio à consolidar o que viria a ser um hobby. Lembro bem quando meu pai chegou dos Estados Unidos em 97 e trouxe consigo um CD-ROM.
Aí desandou a coisa. Tratava-se de uma espécie de atlas virtual, uma enciclopédia muito louca que enumerava os paises, suas capitais e principais características. A arara era o mascote do Brasil, se bem me lembro. Hahaha, não sei a quantas anda o tal CD, acho que sequer roda nos computadores modernóides por aí. Os mapas-mundis também me conquistavam. Tinha um em casa onde ainda constava a União Soviética. E os atlas em geral. Ah, claro, a Larousse, cuja coleção completei graças à assinatura da Folha em 99 (há uma década!). Quando me vi, tinha oito anos e já sabia até a capital da Ilha da Papua Nova Guiné do Caralho à Quatro. De certa forma, eu era uma espécie de criança-prodígio (detestável isso) e podia ir ao Raul Gil, vejam vocês. Anos depois, com minha primeira nota vermelha, descubri que estava focando no segmento errado:
- 5,5 em Ciências. De que adiantam as capitais agora hein c%¨%$#?
Como se conhecimento adquirido tivesse limite de Megabytes. Não, não é um HD sem partições, nem Geografia é um de seus discos removíveis. Muito pelo contrário. A paixão pela área criou uma obsessão maluca por tudo à respeito. Mas uma obsessão mais adequada à realidade, digamos. Como quando fui para a Praia Grande pela primeira vez e passei horas no corredor do apartamento do Souza, grande companheiro, para ver e admirar um enorme mapa político do estado de São Paulo. Em vez de descer, ir à praia, traçar umas mocréias, comer um algodão doce (?); Feito um velho no museu, era eu diante de um mapa. Qualquer que fosse. Ou mesmo quando “descobri” o Google Maps e varei o dia sem durmir mesmo com uma prova no dia seguinte às 9 da manhã.
Os mapas criam grandes ilusões que são diariamente rechaçadas, esmagadas e reduzidas à pó pelo trânsito caótico nosso de cada dia, pela problemática malha urbana de transporte público. Veja bem: numa circunferência imaginária (tipo Tropico de Câncer, saca? Mas como uma esfera) de sei lá quantos kilometros (não muitos, agora me esqueci), você tem vários bairros “coexistindo”: Rudge Ramos, Taboão, Paulicéia (SBC), Ipiranga (SP), Nova Gerty, Mauá (SCS), Canhema (Diadema), etc… Mas de que adianta a tal proximidade se a locomoção de carro entre alguns desses lugares é extremamente sofrível? De “coletivo”, pior ainda. É engraçado meu amigo Daniel ter que se submeter a fazer um “U” ao contrário (aquele sinal de intersecção que aprendemos em Matemática na sexta série) ao pegar ônibus-metrô-ônibus para vir de Cidade Ademar, zona sul de SP, para o Rudge Ramos. Se, de carro, Crazy Dani iria por Diadema economizando um bom tempo.
Mas a questão do trânsito não interessa aqui. É melhor tratar de coisas pouco repercutidas no mundo dos geófilos (que?): a questão das fronteiras. Sou inexplicavelmente alucinado por fronteiras municipais, estaduais, que sejam. Mesmo que elas estejam no meio do nada, como nas rodovias-no-meio-da-mata-atlântica. As placas que indicam limite de município “atraem” mais minha atenção do que as de velocidade máxima. É um acontecimento ímpar passar por uma delas. Um dia ainda vou conferir de perto o limite municipal entre São Paulo e Itanhaém, mesmo que essa fronteira provavelmente seja tão folclórica quanto o Acre e o Ronaldo, seja totalmente inacessível e resguardada em toda sua extensão por reservas ambientais e tribos cujos homens já usam calções da Adidas.
Lembro-me bem de uma reportagem que marcou minha vida há anos: falava sobre a Tríplice Fronteira ali perto de Foz do Iguaçu. Brasil, Paraguai e Argentina lado a lado. Você dá um passo pra lá. “ARGENTINA ÔE”, depois outro e “PARAGUAY ACÁ”. Então você, estafado, volta À PÉ para o Brasil, que é LOGO ALI. Não é mágico? Seria melhor se não existissem as burocracias de fronteira. Guardinha, mureta, arame farpado, loiras efetuando o visto. p>
Nos meus rumos da vida, nas andanças diárias, me vejo diante de duas fronteiras tríplices, sendo Santo André elemento envolvido nas duas. Na primeira delas, meu simpático trajeto no “elétrico” Ferrazópolis – São Mateus passa pela estação Sonia Maria pouco depois de uma banca de frutas “TRÊS DIVISAS”. Dizem os jesuítas que ali o trajeto do ônibus resvala em Mauá. E logo depois, uma curva leve à esquerda, deixa a Rua do Oratório pra trás e nos coloca na Adélia Chohfi, rumo à São Mateus, São Paulo. O que há demais ali? Nada. Nada? Sim. E é exatamente isso que tira do sério.
Ali, meus caros, é um ponto importante. Não há nada que lembre essa tripla divisa a não ser pela barraca de frutas e por uma guaritinha que a prefeitura de Santo André colocou ali. E é só. Mais nada. Sendo assim o mais interessante dessa convivência entre Santo André-Mauá-São Paulo acaba sendo o caminho sinuoso da famosa Rua do Oratório. Começando lá no Carrefour da Avenida do Estado, ela percorre o arrumadinho Parque das Nações, em Santo André, e seu simpático centrinho e a Igreja do Bonfim, para desembocar numa área maior e que simplesmente anda rente á divisa com São Paulo. Pois você lá está você na Oratório quando, à esquerda, do outro lado do córrego, já é possível ver uns 2 CÉUs (obras da Marta, certeza)
- São Paulo aqui já? KD ONIBUS COLORIDINHOS
Mas não. É só o fim de Santo André, ali no Pq. Novo Oratório, Jd. Ana Maria, pra ainda cair no terminal Sonia Maria, Mauá, antes de, efetivamente, adentrarmos em territórios paulistanos. É realmente uma coisa linda – contextualizem esse “linda”, ok? Um bom trecho da Rua do Oratório explora bem a diversidade limítrofe da região. Dá até pra ver bem a Fazenda da Juta com seus predinhos “belos” – agora é sincero mesmo – andando junto com o córrego e o “último suspiro” de Santo André.
Mas é voltando de São Mateus que passo por outra tríplice fronteira, dessa vez até mais importante (sim, pois se há Mauá no meio, não é necessariamente importante): a Fronteira Real do ABC. Ao chegar na Estação Santo André, pego o simpático 069, vulgo ônibus dos prazeres. Ostenta esse título por vários motivos: além de custar a bagatela de 1,95, e ter uma frota quase inteira de ônibus articulados (ou seja, pra você ficar em pé nele, hay que ser muito lento y burro), ele ainda cobre uma série de universidades, dando uma ar mais joVeM à seu montante de passageiros diários. O que isso significa? Que não precisa oferecer assento para ninguém. Haha, maldade, o fato é que aquele ônibus no horário de pico me leva em apenas meia hora para a faculdade, e é lotado de belas moças vestidas em trajes sociais. Mulher em so-ci-al. Precisa dizer mais algo?
No caminho, o único imprevisto é o Trevo da Vila Palmares. A Prefeitura de Santo André, sempre ela, está realizando uma obra ali. Não exatamente uma de suas obras faraônicas como a da av. Lions, mas uma de suas realizações que, invariavelmente, precisam de uma enorme placa para auto-divulgação barata. Uma obra que já se arrasta por alguns meses e causa um pequeno transtorno na entrada para a Rua Afonsina, já em SBC. O que acontece de tão surreal (ou not) é que o Trevo em obras faz o ônibus se deslocar à direita num local que, vejam só, já adentra aos domínios da Ilha de São Caetano do Sul.
Não me achem idiota. Eu REALMENTE acho genial o fato do ônibus, em apenas alguns metros, percorrer as três cidades da grande sopa de letrinhas suburbana, mesmo que a passagem por São Caetano seja meteórica, irrisória. É a MÍSTICA da TRÍPLICE FRONTEIRA. Não há absolutamente NADA no local que lembre essa coexistência (nem tão) pacífica entre A, B e C do ABC. Nem uma plaquinha. Individualmente, cada prefeitura lembra, à seu modo, que a cidade começa naquele ponto. Mas uma iniciativa conjunta, nada. Claro que não deixo transbordar emoção. Fico na minha. Só imaginando se mais algum maluco por geografia sente o mesmo que eu.
E o Google Maps me deixou seqüelado.
ouvindo Cartola – O Mundo é um Moinho
Crônicas Urbanas part. I
- Linda! Maravilhosa! Pena que nunca mais a verei – pensei, num momento raro de consciência.
Com o cabelo preso e um shortinho curto, levando a crer que fizera exercícios físicos na escola pela manhã, era impossível não notar aquela escultura. Não desejá-la. Não amá-la de um jeito platônico, envergonhante e, ao mesmo tempo, excitante. Uma aventura que animava meus longos 60, 70 minutos naquela rotineira viagem.
- Pena que nunca mais a verei – observei novamente, porque nunca era demais lembrar desse detalhe.
Tantas pessoas vão e vem. Vem e desaparecem. Tantas são iguais, semelhantes, cópias uma da outra. Mas não aquela ali. Não ela.
Tateou na bolsa algum objeto. Acompanhei sua busca breve. Era uma caixinha, aparentemente contendo comida. China In Box. Isso! Como uma donzela fina, sacou, com graça, dois hashis e devorou sua comida oriental. Em tempo, a palavra “devorar” não se adequa nem um pouco à leveza admirável daquela linda moça. Ela, pois, digeriu seu almoço no ônibus em longos minutos, sem se importar com o cheiro delicioso que impestava o ar, os famintos que a miravam sem complacência e o pouco conforto da viagem cheia de paradas e trancos bruscos.
Quando terminou de comer, juntou tudo na caixa e guardou na bolsa, encontrou um vão na janela por onde procurou se entreter por alguns minutos.
- Muito boa tarde a todos! Meu nome é Édson, estou vendendo essas balas de goma para sustentar minha família e… – bradava o vendedor ambulante, em vozes silabicamente divididas, interrompendo, por um instante, a observação quase paranóica que eu nutria pela garota.
Quando já ia me deixando ser derrotado pelo cansaço e fim de viagem, ela, a luz daquele ônibus já tomado pela tempestade que viria a seguir, me surpreende mais uma vez. Como nenhuma outra menina seria capaz de fazer no meio de um trólebus lotado, ela procura por lenços umedecidos e limpa o rosto como se eu assistisse, in loco, a um comercial de cosméticos na TV.
- Feminina. Isso sim é uma mulher, que feminilidade, que movimentos leves, paixão. A paixão ao primeiro lenço!
- Pena que nunca mais a verá!
Num diálogo que mais pareceu um conflito clássico entre o meu anjo, no lado direito do ombro, e meu demônio, do lado esquerdo, como se vê em filmes e quadrinhos, deixei o ônibus obstinado à segui-la um pouco.
- Não vou perdê-la de vista – pensei. Estava determinado a ver no que ia dar. Não custava nada saber até onde nossos passos seriam os mesmos. Quem sabe ela… bom, nevermind.
Subimos e descemos a mesma escada rolante no Terminal São Mateus. Discreto, não levantei suspeitas. Estava fazendo o meu caminho. E ela ia na frente, quase adivinhando por onde eu iria. Mirava aquela garota como poucas vezes havia mirado alguém, sem o menor apelo sexual. Se seu shortinho curto atiçava a imaginação de uns, a mim nada mais pesava – e apaixonava – do que sua cena comendo, sutil e delicadamente, a comida com os hashis ou limpando o rosto com os lencinhos, na mais perfeita graça feminina. O zelo e o carinho pela pele, aquela exalação de feminilidade, tudo o mais faziam com que sua chamativa bunda viesse em terceiro, quarto plano. Isso eu deixava à cargo da imaginação dos outros. Pobres de espírito. E de amor.
E assim entramos no mesmo ônibus; Term. Pq. D. Pedro I. E descemos no mesmo ponto, pouco depois do primeiro posto da Mateo Bei. Tomei meu rumo em direção ao trabalho. Fui para a esquerda. Ela, para direita. Olhei duas vezes para trás. Mas a multidão na avenida e o prenúncio de um temporal fizeram perdê-la de vista.
- Volte sempre!
Sinal de alguma coisa? Não. Ah, sou extrememente cético em relação à essas coisas de destino. Tudo bobagem. Papo furado. “Qual era o nome dela?” É o que eu mais precisava saber. Agora, só espero vê-la de novo. Em qualquer lugar. Qualquer circunstância. Só vê-la. Já estaria de bom grado. Suficiente pra saciar meu Part Two. O tempo que perco me lançando de uma cidade à outra foi muito bem preenchido por esse furacão fora de época.
- Pena que nunca mais…
- Será mesmo?
ouvindo João Nogueira – Espelho
