Camilla’s Big Score
Entre calhamaços de informativos imobiliários distribuídos na esquina com a Augusta e o buzinaço que me leva a crer que esta manhã de sexta-feira de sol setembrina será bem movimentada, penso com meus botões se a jornalista Camilla Feltrin estará disponível para atender a reportagem da Piauí logo às 7h30. “Não sou de desmarcar compromissos”, afirmara ela na noite anterior. Nitidamente assustado com o trânsito que se densificara no momento, resolvi aderir à pontualidade britânica para evitar qualquer descompasso entre nossos acordos. Consegui me dirigir até a altura do número 200 da Alameda Santos rigorosamente no horário marcado. Tinha alguns minutos para me assegurar sobre qual dos prédios era o da jornalista, pensei. Com um gosto pelo suburbano, “como quando moramos em albergues em NY”, ela e o maridão, o colega de profissão Felipe Castro, resolveram, há 5 anos, se estabelecer na rua que é paralela à avenida Paulista, ali no coração cultural da capital paulista. Mas os prédios não chamavam atenção. Em vias de ser pintado, a parede cinzenta-primitiva de um deles mostrava que, naquela região classuda e vigorosamente elegante, aqueles, a despeito do nome (conjunto Castel du Chambussy), não eram como seus congêneres. Eram edifícios diferentes, alguns meros coadjuvantes dos arranha-céus que saltavam da Paulista, pequenos, “suburbanos” por assim dizer. Eram uns dois blocos ou três, apartamentos que não passam dos 100km², não mais do que seis andares. Subi apressadamente as escadas rumo ao terceiro piso para ir de encontro à personagem do Perfil de setembro. Camilla tinha uma agenda atarefada e a janela das 7h30 às 8h15 era o único horário disponível em meses. Mas tão logo, nesse meio-tempo das escadas – o elevador estava encalhado no térreo – já pensei em me explicar para o leitor da Piauí. Seria isso necessário? Talvez não, mas talvez sim. Afinal, porque um prólogo tão grande sobre a entrevista de uma… colega jornalista? O que levaria Camilla Ramos Feltrin ao posto privilegioso de receber atenção de nossa reportagem e de tantas outras revistas, sites e publicações assim, no intervalo de uma semana ou duas? Num país sedento pela valorização do escrupuloso, onde BBBs e artistas andrógenos viram capa de revista a todo instante, uma jornalista de política do Diario de S. Paulo não chamaria a atenção de ninguém. Mas não tinha como ser. O que estava por trás da pequena loira de 1,70 e olhos castanhos claros (“ora eles “estão” verdes, segundo meu marido”) que, na última e derradeira questão dos jornalistas no também último e derradeiro debate presidencial promovido pela Rede Globo, atacou elegantemente e expôs as feridas de Rafael Daniel (PMDB-PT-PSB), filho do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, assassinado em 2002, num dos mais alardeados botes eleitoriais dos últimos tempos? Camilla se notabilizou pela pergunta seca e incisiva sobre como os esclarecimentos nebulosos a respeito da morte do pai do candidato a república em 2022 (que tiveram como principais suspeitos os membros do próprio partido de Celso Daniel, o PT), poderiam comprometer na tentativa do próprio candidato de atacar a promiscuidade e cisão interna do partido dos pleiteantes rivais à cadeira de Presidente, num golpe que, segundo frisou a jornalista no debate ao vivo, seria “o mais baixo da história recente da política brasileira.”
Tão logo bati na porta e já fomos falando do assunto, assim, rapidamente. Ela estava lá, já vestida em social, num visual que me confundiu; estaria ela apressada ou só havia antecipado o ritual da troca de roupas antes deu chegar, antevendo uma longa entrevista pela frente, pensei.
- Como andreense que sou (nota: Camilla, nasceu na Vila Linda, em Santo André, e se recorda, aos 10 anos, da morte do ex-prefeito Celso Daniel), me senti na obrigação de levantar no debate mais decisivo aquele fato que ficou guardado por décadas – revela, com brilho nos olhos.
Mas ela garante que não tem preferências políticas nem pelo conterrâneo Rafael Daniel, nem pelo rival tucano, o mais popular nas pesquisas do segundo turno para 2022, Alércio Neves. “Fui apenas uma jornalista que contestou em rede nacional, só isso.” Passados quatro dias do ensejo político, ela já recebeu sondagens de outros jornais, conta. Folha, Estadão, revistas semanais diversas. “Na Veja eu não trabalho”, afirma sorrindo, sem ironias. “Culpa do Felipe, que sempre me fez a cabeça.” Perguntada se ele era o único homem que fazia sua cabeça, Camilla não perdeu tempo. “Sem dúvidas.” Voltando ao tema político, epicentro de nossa conversa, para colocar de volta em órbita os olhos apaixonados da jornalista, foram necessáris apenas cinco minutos para que meus pensamentos se dispersassem novamente. Na medida em que minha retina corria a prateleira do apartamento do casal Camilla e Felipe, tirei daí a quebra de assunto que procurava para mudar o tom da entrevista. Um vinil enorme reluzia no meio da parede toda colorida e cheia de artigos de colecionador. Era um exemplar original de “Goo” em forma de vinil, disco da banda americana Sonic Youth, que encerrou suas atividades há pouco mais de 6 anos. “Está vendo esse disco? Ele é de 1990, um ano antes deu nascer. Conseguimos esse autógrafo aqui, direto da Kim. Estará guardado para sempre”, conta Camilla, muito orgulhosa. Kim é como ela chama, quase como uma amiga íntima, a baixista da banda, Kim Gordon, que morreu em 2018, vítima de um câncer no colo do útero. “Quando eu e o Felipe cobrimos música no Terra, nós a conhecemos junto do resto da banda, que é, inclusive, a grande banda (Sonic Youth) da minha vida e do Felipe, a partir do momento em que nos conhecemos. Aí foi fácil conseguir a proeza.” Mais uma deixa da jornalista para que, em outros tempos, acusassem de indiscutível improbidade amorosa dentro de serviço. Eles trabalharam juntos, como maridos? Pensei de imediato. Meu segundo pensamento não se segurou e disparei: “Vocês se conheceram no Portal do Terra?” Ao que Camilla se aprontou a responder, com um sorriso no rosto. “Não não. Veja só, nossa história é de 2009, quando nos conhecemos ainda na faculdade, em São Bernardo.” A loira se prontificou a falar sobre a carreira do marido, sem o escriba ao menos perguntar, e fez questão de reparar que o único momento em que trabalharam juntos foi justamente no portal de internet, “por apenas um ano”. Ela conta que Felipe não está presente no apartamento porque partiu em viagem pelo Leste Europeu produzindo uma reportagem para a rádio BBC-Brasil. “Ele disse que iria trazer lembranças do Islã direto da Bósnia,” conta ela, para logo desmentir. “Não sou muçulmana, só gosto de souvenirs.” Quando a conversa parecia que iria voltar ao normal e os discos já não interessavam tanto, perguntei a respeito dos entraves políticos sobre as quais ela havia escrito em seu blog, no último dia 13. “Rafael x Alércios e as mentiras partidárias”, era o título do post. Sorrateira e economizando adjetivos, ela só disse que achava necessário mostrar a verdade a respeito de uma disputa presidencial tão “sem carisma” segundo ela, “a mais “sem carisma” desde 2010″. Visivelmente desestimulada a falar sobre o assunto, antes de mudar o tom da conversa notei a presença de um pequeno ser, vindo de encontro a mim – um estranho no ninho (CONTINUA…)
24 de Setembro de 2022. Por Tostão Moura.
Crônicas Urbanas part. I
- Linda! Maravilhosa! Pena que nunca mais a verei – pensei, num momento raro de consciência.
Com o cabelo preso e um shortinho curto, levando a crer que fizera exercícios físicos na escola pela manhã, era impossível não notar aquela escultura. Não desejá-la. Não amá-la de um jeito platônico, envergonhante e, ao mesmo tempo, excitante. Uma aventura que animava meus longos 60, 70 minutos naquela rotineira viagem.
- Pena que nunca mais a verei – observei novamente, porque nunca era demais lembrar desse detalhe.
Tantas pessoas vão e vem. Vem e desaparecem. Tantas são iguais, semelhantes, cópias uma da outra. Mas não aquela ali. Não ela.
Tateou na bolsa algum objeto. Acompanhei sua busca breve. Era uma caixinha, aparentemente contendo comida. China In Box. Isso! Como uma donzela fina, sacou, com graça, dois hashis e devorou sua comida oriental. Em tempo, a palavra “devorar” não se adequa nem um pouco à leveza admirável daquela linda moça. Ela, pois, digeriu seu almoço no ônibus em longos minutos, sem se importar com o cheiro delicioso que impestava o ar, os famintos que a miravam sem complacência e o pouco conforto da viagem cheia de paradas e trancos bruscos.
Quando terminou de comer, juntou tudo na caixa e guardou na bolsa, encontrou um vão na janela por onde procurou se entreter por alguns minutos.
- Muito boa tarde a todos! Meu nome é Édson, estou vendendo essas balas de goma para sustentar minha família e… – bradava o vendedor ambulante, em vozes silabicamente divididas, interrompendo, por um instante, a observação quase paranóica que eu nutria pela garota.
Quando já ia me deixando ser derrotado pelo cansaço e fim de viagem, ela, a luz daquele ônibus já tomado pela tempestade que viria a seguir, me surpreende mais uma vez. Como nenhuma outra menina seria capaz de fazer no meio de um trólebus lotado, ela procura por lenços umedecidos e limpa o rosto como se eu assistisse, in loco, a um comercial de cosméticos na TV.
- Feminina. Isso sim é uma mulher, que feminilidade, que movimentos leves, paixão. A paixão ao primeiro lenço!
- Pena que nunca mais a verá!
Num diálogo que mais pareceu um conflito clássico entre o meu anjo, no lado direito do ombro, e meu demônio, do lado esquerdo, como se vê em filmes e quadrinhos, deixei o ônibus obstinado à segui-la um pouco.
- Não vou perdê-la de vista – pensei. Estava determinado a ver no que ia dar. Não custava nada saber até onde nossos passos seriam os mesmos. Quem sabe ela… bom, nevermind.
Subimos e descemos a mesma escada rolante no Terminal São Mateus. Discreto, não levantei suspeitas. Estava fazendo o meu caminho. E ela ia na frente, quase adivinhando por onde eu iria. Mirava aquela garota como poucas vezes havia mirado alguém, sem o menor apelo sexual. Se seu shortinho curto atiçava a imaginação de uns, a mim nada mais pesava – e apaixonava – do que sua cena comendo, sutil e delicadamente, a comida com os hashis ou limpando o rosto com os lencinhos, na mais perfeita graça feminina. O zelo e o carinho pela pele, aquela exalação de feminilidade, tudo o mais faziam com que sua chamativa bunda viesse em terceiro, quarto plano. Isso eu deixava à cargo da imaginação dos outros. Pobres de espírito. E de amor.
E assim entramos no mesmo ônibus; Term. Pq. D. Pedro I. E descemos no mesmo ponto, pouco depois do primeiro posto da Mateo Bei. Tomei meu rumo em direção ao trabalho. Fui para a esquerda. Ela, para direita. Olhei duas vezes para trás. Mas a multidão na avenida e o prenúncio de um temporal fizeram perdê-la de vista.
- Volte sempre!
Sinal de alguma coisa? Não. Ah, sou extrememente cético em relação à essas coisas de destino. Tudo bobagem. Papo furado. “Qual era o nome dela?” É o que eu mais precisava saber. Agora, só espero vê-la de novo. Em qualquer lugar. Qualquer circunstância. Só vê-la. Já estaria de bom grado. Suficiente pra saciar meu Part Two. O tempo que perco me lançando de uma cidade à outra foi muito bem preenchido por esse furacão fora de época.
- Pena que nunca mais…
- Será mesmo?
ouvindo João Nogueira – Espelho
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