Sueisfine
Nick Drake gravou apenas 3 discos em sua breve carreira. A voz ora grossa ora fina, mas sempre suave, e seu dedilhado pulsante em afinações violonísticas nada ortodoxas eram suas características mais fortes. Era diferenciado, todos sabiam. Menos seus contemporâneos. Certa vez, em um surto com o o produtor Joe Boyd, argumentou:
- Você disse que eu sou gênio, então por que não sou rico nem famoso?
A obra de Drake era tão incrível que custou muito para que fosse devidamente alardeada. Pink Moon, seu último suspiro, foi gravado em 1972, apenas em violão e voz, com Drake irradiando alma e transpiração, um desabafo claro e agonizante como quem diz: “Isso aqui sou eu, eu e meu violão. No meu estado mais puro, bruto, então por que não compram a porra do meu disco?”
Sua última música, “Black-Eyed Dog“, foi escrita sobre Winston Churchill. A mesma “Black-Eyed Dog” que foi, décadas e décadas mais tarde, relembrada por Heath Ledger em seu vídeo-homenagem à Drake, meses antes do hollywoodiano se matar, assim como seu homenageado fez 34 anos antes.

Heath Ledger protagonizou "I'm Not There", sobre a vida de um controverso Bob Dylan, mas queria mesmo interpretar Nick Drake (direita) na telona
Em comum, a depressão que afetava a todos os três. E só. Até porque não compartilhavam a mesma profissão, muito menos eram contemporâneos entre si. Churchil, estadista dos mais emblemáticos, exemplo clássico de gentleman britânico, diplomata ativo na II Guerra e que viveu na primeira metade do século passado – e ainda empresta seu nome à avenida dos Três Postos em São Bernardo. O outro, cantor, violonista inventivo, compositor de letras profundas, tristes e apaixonantes, que falavam do campo, das colinas e da Inglaterra. Mas Drake viveu dos anos 40 aos 70, matando-se precocemente num dos episódios mais silenciosos da história da música. Já Ledger nasceu 5 anos depois da morte de Nick, na exótica Austrália e fez grande carreira num meio onde desfilam atores e diretores, figurantes e figurinistas, cineastas e entusiastas, gente rica e bonita de todo jeito, todos milionários, pomposos e principalmente alegres e radiantes: A Hollywood como vemos da TV. Mas, os dois últimos têm muito mais em comum do que podemos imaginar.
Relacionar e comparar figuras midiáticas que terminaram da mesma forma trágica é algo curioso que vai, aos poucos, desmistificando um quebra-cabeça antigo do mundo da arte; a não ser por Churchill, que era depressivo mas não terminou arrancando a própria vida (porém influenciou outro estadista que teve a mesma brilhante ideia a fim de abotoar o paletó de madeira: nosso Getulio Vargas), os outros dois supracitados compõem um panteão sagrado e infinito de cantores, músicos, atores, pintores e demais figuras que cometeram o terrível ato que, segundo Tomás de Aquino, representa a “maior afronta a Deus, que dá a vida e o direito de determinar quando ela termina”: estamos falando, é claro, do suicídio.
“Saio da vida para entrar para a história” (VARGAS, Getúlio) e “Eu espero morrer antes de ficar velho” (TOWNSHEND, Pete) são alguns dos lemas, sentenças definitivas e possíveis epitáfios mundo a fora que inspiraram nossos auto-flageladores. No rock’n roll das drogas e exageros, a morte quase que instantânea do trio Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin também começou a construir o mito do “suicídio artístico”. Nesses casos, houve overdose mas não se configurou suicídio em nenhum deles.
Há ainda o célebre caso de Ian Curtis, ex-vocalista do Joy Division. Curtis desde cedo corroborava o ideal roqueiro-radical de Townshend. Pessoas próximas afirmavam que sempre lhe apeteceu a ideia de morrer jovem. E assim o fez. Sempre foi uma criança problemática e carregou consigo alguns dos distúrbios e insucessos para a vida adulta. Não resistiu muito. Curioso, porém, é observar que, das cinzas de Curtis e de seu grupo, surgiu aquela que seria uma das mais inventivas e alegres bandas do movimento new wave dos anos 80: o New Order. Você certamente já ouviu algum remix de Blue Monday numa balada ou numa Energia 97 da vida ou alguma versão axé de Bizarre Love Triangle por aí e mal deve imaginar que o New Order veio, na verdade, dos restos de uma banda que tinha como líder uma figura controversa e altamente obscura. Que se matou acreditando no mito do herói morto.
Os célebres pintores Vincent van Gogh e Frida Kahlo, o escritor Ernest Hemingway, o nosso ex-presidente bipolar (ou seja, primeiro o Pai dos trabalhadores e depois Pai do Estado Novo, a Ditadura que ainda não era militar) Getúlio Vargas, todos eles tinham alguma coisa em comum. O aspecto genioso, impassível, algo de revolucionário e conturbado em suas mentes. O não-êxito ou o excesso. A vida privada invadida, a figura de superstar que não suportavam. A amargura e a infelicidade pessoal. A depressão, megalomania. Um misto de tudo isso ou só algo disso.
Heath Ledger, aquele ator que fez Batman, I’m Not There e Brokeback Mountain num intervalo de 3 anos, estava ainda desfrutando dos louros de seus aclamados filmes quando foi encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, com 28 anos, uma carreira na crista da onda e pílulas para dormir deixadas no criado-mudo. A pneumonia foi diagnosticada na necropsia, mas, a hipótese de suicídio foi levantada e aceita por todos. A morte e a infelicidade do ator norte-americano até hoje ressoam e não encontram respostas à altura; Ledger era bem-sucedido, bem-quisto, boa-praça e todos os outros adjetivos insossos que começam com b e têm hífen que podemos imaginar. Mais do que isso: ele era bom, muito bom no que fazia. Mesmo sendo difícil, intempestivo, genioso. Uns dizem que a recepção hostil a seu personagem gay em Brokeback Mountain foi uma das causas. Hipótese ligeiramente descartada. Ledger estava infeliz e inquieto, por motivos que talvez nunca venhamos a descobrir. E nem é o principal propósito desse pobre e reles artigo.
O intrigante é o cárater estupidamente heróico e grosseiramente romântico que o suicídio toma em determinadas circunstâncias. Mas isso constitui um mito. Forte e antigo, o saudoso mito do suicídio, ou simplesmente da morte que eterniza o ídolo. Afinal, o que Kurt Cobain, morto em 1994, estaria fazendo hoje? Talvez gravando músicas para campanhas contra o câncer de mama ao lado de Billy Joe Armstrong, Barack Obama, Sheryl Crow e Roberta Miranda. Ou melhor, parafraseando algum amigo comunista/anti-comunista que todos nós temos: o que aconteceria se Che Guevara estivesse vivo até hoje e Fidel Castro tivesse sucumbido em alguma guerrilha mal-sucedida na América Latina nos anos 70? Talvez a figura mais estampada em camisas no mundo inteiro em todos os tempos seria a de Fidel e não Che. Hitler preferiu o suicídio a ser pego, aprisionado, torturado e humilhado pelos soviéticos assim que Berlim foi sitiada pelos aliados em 45. Tudo no campo da suposição, nada mais. Seria uma inversão de valores, de ideias (agora sem acento), uma válvula de escape extremamente radical para se safar de insucessos na vida profissional e/ou possível incapacidade pessoal de lidar com a fama e o (não-)reconhecimento. Vamos abreviar a nossa vida e só conservar o que há de melhor, para as boas gerações terem lembranças boas de nós, ok?
E é assim que funciona. Por bem ou por mal. E adoramos, idolatramos, tudo de peito aberto. “A privação da vida é não um mal”, já dizia Montaigne, quotando algum filósofo pró-suicídio da Grécia Antiga. Ou é?
vídeo-homenagem do Ledger; de um suicida para outro
Respeite a Geografia!
Minha alucinação por geografia é coisa antiga. Mas muito antiga e muito besta. Ainda pequeno, eu já me fechava no quarto pra bolar milhares de fórmulas e campeonatos envolvendo os times do meu país fictício, a Flândria, e ainda inventava as cidades e os mapas da mesma nas últimas páginas dos cadernos da escola. A paixão doentia foi se desenvolvendo. Lembro das viagens noturnas de 10, 11 horas com a familia para Santa Catarina, quando vencia o sono à todo custo para ver a paisagem, as cidades, as placas. E um CD veio à consolidar o que viria a ser um hobby. Lembro bem quando meu pai chegou dos Estados Unidos em 97 e trouxe consigo um CD-ROM.
Aí desandou a coisa. Tratava-se de uma espécie de atlas virtual, uma enciclopédia muito louca que enumerava os paises, suas capitais e principais características. A arara era o mascote do Brasil, se bem me lembro. Hahaha, não sei a quantas anda o tal CD, acho que sequer roda nos computadores modernóides por aí. Os mapas-mundis também me conquistavam. Tinha um em casa onde ainda constava a União Soviética. E os atlas em geral. Ah, claro, a Larousse, cuja coleção completei graças à assinatura da Folha em 99 (há uma década!). Quando me vi, tinha oito anos e já sabia até a capital da Ilha da Papua Nova Guiné do Caralho à Quatro. De certa forma, eu era uma espécie de criança-prodígio (detestável isso) e podia ir ao Raul Gil, vejam vocês. Anos depois, com minha primeira nota vermelha, descubri que estava focando no segmento errado:
- 5,5 em Ciências. De que adiantam as capitais agora hein c%¨%$#?
Como se conhecimento adquirido tivesse limite de Megabytes. Não, não é um HD sem partições, nem Geografia é um de seus discos removíveis. Muito pelo contrário. A paixão pela área criou uma obsessão maluca por tudo à respeito. Mas uma obsessão mais adequada à realidade, digamos. Como quando fui para a Praia Grande pela primeira vez e passei horas no corredor do apartamento do Souza, grande companheiro, para ver e admirar um enorme mapa político do estado de São Paulo. Em vez de descer, ir à praia, traçar umas mocréias, comer um algodão doce (?); Feito um velho no museu, era eu diante de um mapa. Qualquer que fosse. Ou mesmo quando “descobri” o Google Maps e varei o dia sem durmir mesmo com uma prova no dia seguinte às 9 da manhã.
Os mapas criam grandes ilusões que são diariamente rechaçadas, esmagadas e reduzidas à pó pelo trânsito caótico nosso de cada dia, pela problemática malha urbana de transporte público. Veja bem: numa circunferência imaginária (tipo Tropico de Câncer, saca? Mas como uma esfera) de sei lá quantos kilometros (não muitos, agora me esqueci), você tem vários bairros “coexistindo”: Rudge Ramos, Taboão, Paulicéia (SBC), Ipiranga (SP), Nova Gerty, Mauá (SCS), Canhema (Diadema), etc… Mas de que adianta a tal proximidade se a locomoção de carro entre alguns desses lugares é extremamente sofrível? De “coletivo”, pior ainda. É engraçado meu amigo Daniel ter que se submeter a fazer um “U” ao contrário (aquele sinal de intersecção que aprendemos em Matemática na sexta série) ao pegar ônibus-metrô-ônibus para vir de Cidade Ademar, zona sul de SP, para o Rudge Ramos. Se, de carro, Crazy Dani iria por Diadema economizando um bom tempo.
Mas a questão do trânsito não interessa aqui. É melhor tratar de coisas pouco repercutidas no mundo dos geófilos (que?): a questão das fronteiras. Sou inexplicavelmente alucinado por fronteiras municipais, estaduais, que sejam. Mesmo que elas estejam no meio do nada, como nas rodovias-no-meio-da-mata-atlântica. As placas que indicam limite de município “atraem” mais minha atenção do que as de velocidade máxima. É um acontecimento ímpar passar por uma delas. Um dia ainda vou conferir de perto o limite municipal entre São Paulo e Itanhaém, mesmo que essa fronteira provavelmente seja tão folclórica quanto o Acre e o Ronaldo, seja totalmente inacessível e resguardada em toda sua extensão por reservas ambientais e tribos cujos homens já usam calções da Adidas.
Lembro-me bem de uma reportagem que marcou minha vida há anos: falava sobre a Tríplice Fronteira ali perto de Foz do Iguaçu. Brasil, Paraguai e Argentina lado a lado. Você dá um passo pra lá. “ARGENTINA ÔE”, depois outro e “PARAGUAY ACÁ”. Então você, estafado, volta À PÉ para o Brasil, que é LOGO ALI. Não é mágico? Seria melhor se não existissem as burocracias de fronteira. Guardinha, mureta, arame farpado, loiras efetuando o visto. p>
Nos meus rumos da vida, nas andanças diárias, me vejo diante de duas fronteiras tríplices, sendo Santo André elemento envolvido nas duas. Na primeira delas, meu simpático trajeto no “elétrico” Ferrazópolis – São Mateus passa pela estação Sonia Maria pouco depois de uma banca de frutas “TRÊS DIVISAS”. Dizem os jesuítas que ali o trajeto do ônibus resvala em Mauá. E logo depois, uma curva leve à esquerda, deixa a Rua do Oratório pra trás e nos coloca na Adélia Chohfi, rumo à São Mateus, São Paulo. O que há demais ali? Nada. Nada? Sim. E é exatamente isso que tira do sério.
Ali, meus caros, é um ponto importante. Não há nada que lembre essa tripla divisa a não ser pela barraca de frutas e por uma guaritinha que a prefeitura de Santo André colocou ali. E é só. Mais nada. Sendo assim o mais interessante dessa convivência entre Santo André-Mauá-São Paulo acaba sendo o caminho sinuoso da famosa Rua do Oratório. Começando lá no Carrefour da Avenida do Estado, ela percorre o arrumadinho Parque das Nações, em Santo André, e seu simpático centrinho e a Igreja do Bonfim, para desembocar numa área maior e que simplesmente anda rente á divisa com São Paulo. Pois você lá está você na Oratório quando, à esquerda, do outro lado do córrego, já é possível ver uns 2 CÉUs (obras da Marta, certeza)
- São Paulo aqui já? KD ONIBUS COLORIDINHOS
Mas não. É só o fim de Santo André, ali no Pq. Novo Oratório, Jd. Ana Maria, pra ainda cair no terminal Sonia Maria, Mauá, antes de, efetivamente, adentrarmos em territórios paulistanos. É realmente uma coisa linda – contextualizem esse “linda”, ok? Um bom trecho da Rua do Oratório explora bem a diversidade limítrofe da região. Dá até pra ver bem a Fazenda da Juta com seus predinhos “belos” – agora é sincero mesmo – andando junto com o córrego e o “último suspiro” de Santo André.
Mas é voltando de São Mateus que passo por outra tríplice fronteira, dessa vez até mais importante (sim, pois se há Mauá no meio, não é necessariamente importante): a Fronteira Real do ABC. Ao chegar na Estação Santo André, pego o simpático 069, vulgo ônibus dos prazeres. Ostenta esse título por vários motivos: além de custar a bagatela de 1,95, e ter uma frota quase inteira de ônibus articulados (ou seja, pra você ficar em pé nele, hay que ser muito lento y burro), ele ainda cobre uma série de universidades, dando uma ar mais joVeM à seu montante de passageiros diários. O que isso significa? Que não precisa oferecer assento para ninguém. Haha, maldade, o fato é que aquele ônibus no horário de pico me leva em apenas meia hora para a faculdade, e é lotado de belas moças vestidas em trajes sociais. Mulher em so-ci-al. Precisa dizer mais algo?
No caminho, o único imprevisto é o Trevo da Vila Palmares. A Prefeitura de Santo André, sempre ela, está realizando uma obra ali. Não exatamente uma de suas obras faraônicas como a da av. Lions, mas uma de suas realizações que, invariavelmente, precisam de uma enorme placa para auto-divulgação barata. Uma obra que já se arrasta por alguns meses e causa um pequeno transtorno na entrada para a Rua Afonsina, já em SBC. O que acontece de tão surreal (ou not) é que o Trevo em obras faz o ônibus se deslocar à direita num local que, vejam só, já adentra aos domínios da Ilha de São Caetano do Sul.
Não me achem idiota. Eu REALMENTE acho genial o fato do ônibus, em apenas alguns metros, percorrer as três cidades da grande sopa de letrinhas suburbana, mesmo que a passagem por São Caetano seja meteórica, irrisória. É a MÍSTICA da TRÍPLICE FRONTEIRA. Não há absolutamente NADA no local que lembre essa coexistência (nem tão) pacífica entre A, B e C do ABC. Nem uma plaquinha. Individualmente, cada prefeitura lembra, à seu modo, que a cidade começa naquele ponto. Mas uma iniciativa conjunta, nada. Claro que não deixo transbordar emoção. Fico na minha. Só imaginando se mais algum maluco por geografia sente o mesmo que eu.
E o Google Maps me deixou seqüelado.
ouvindo Cartola – O Mundo é um Moinho

2 comentários