Quem gosta bastante de música sabe bem: as coletâneas e os The Best Of não passam de notas de rodapé na carreira de um artista. Uma maneira fácil da gravadora conseguir uma grana rápida, tirando do ostracismo aquela banda morimbunda que passa por um hiato na carreira – ou tirando a si próprio da merda lançando um material sem consentimento do seu artista.
Mas nem sempre é assim. Alguns Greatest Hits da vida conseguem ser um pouco mais do que simples caça-níqueis e acabam marcando a vida dos fãs. Para mim, as compilações eram quase tudo que eu tinha a disposição para ouvir e formar o gosto musical catatônico que tenho hoje. A coleção devidamente catalogada do meu pai tinha 500 títulos e a maioria era proveniente das famosas baciadas das Americanas – ah, que saudades. Aquela porção de CDs a $9,90 era um prato cheio pra voltar pra casa com a sacola cheia de discos “diferentes”, fora até da discografia original do artista – mas quem se importava?
Eu peguei alguns desses CDs e listei aqui: o top 10 das coletâneas mais legais que já ouvi e marcaram minha vida. Alguns são materiais não-reconhecidos, ordinários, rejeitados pelos fãs, lançado sem o aval do artista. Não ligo, assim é até mais legal. Portanto, aqui não entram álbuns acústicos da MTV, live at Madison Square Garden ou Ao Vivo no Maracanã, discos póstumos com b-sides, nada disso. Só negócio nível Perfil e The Best Of. Olha aí:
10º Ira! – 2 é Demais!

Começo por esse aqui, no melhor estilo “É fajuto, mas é legal”. Estive pesquisando e a nefasta e meio clandestina série 2 é Demais! não só lançou o Ira! como também os comparsas do Ultraje a Rigor e o Oswaldo Montenegro (é, as séries brasileiras nunca se importaram muito com o fator “afinidade musical” entre seus artistas). Mas não foi nada não. Irracionalidade, na verdade, é vender o produto como Melhor do Ira! e não ser nada mais do que uma junção dos álbuns Mudança de Comportamento (1985, WEA) e Vivendo e Não Aprendendo (1986, WEA), tipo, um colado no outro. Ou seja, tem vários dos clássicos da banda, sim, aqueles que estão nos dois primeiros inéditos do Ira!. Tem Longe de Tudo, tem Núcleo Base, tem Tolices, tem Dias de Luta, tem a global Flores em Você, tem até as faixas ao vivo Gritos na Multidão e (a reacionária) Pobre Paulista. E nem a ordem das músicas a série 2 é Demais! fez questão de mudar. Será que o Psicoacústica, terceiro álbum da banda, também não merecia algumas representantes no tal do Melhor do Ira!? Claro que eu era novo e nem havia me tocado disso. Pensava que ali, diante das minhas mãos, estava a nata da banda paulistana. Que nada. O título podia ser Pague 1, Leve 2. Seria muito mais honesto. Mas eu sou mulhé de malandro né, curto ser enganado. Portanto, disco legal, dá pra curtir uma tarde…se você é besta e curte ouvir The Jam com sotaque paulistano. Opa
9º Os Paralamas do Sucesso – Arquivo
O Paralamas descobriu que poderia lançar uma compilação dos melhores hits e, com isso, apresentar uma música inédita abrindo o álbum. Iniciativa inédita até então, Arquivo (1990, EMI) é o disco laranjinha da banda, que começa com Caleidoscópio, a novidade. Vital e Sua Moto também aparece repaginada, num visual 90′s. Essas duas faixas destoam, em termos estritamente técnicos, das demais, remanescentes da fase guitarrinha-com-reverb-bateria-bem-marcada, característica inconfundível dos anos 80, ê anos 80. Disco bacana.
8º The Rolling Stones – Forty Licks

Citadel, No Expectations, Sister Morphine, You Got the Silver, Torn and Frayed, Love in Vain, Let it Loose, Rocks Off, Lady Jane, Back Street Girl, Jigsaw Puzzle, She’s So Cold… É interminável a lista de músicas que poderiam entrar mas não foram incluídas na aclamada coletânea Forty Licks (2002, Virgin). Se você é fã de Stones como eu, deve ter se lamentado pela ausência de algumas canções. É aquela coisa: banda muito boa não vai conseguir ter uma compilação à altura da grandiosidade de todos seus álbuns de estúdio. Faltou essa, faltou aquela. O que importa é que o Forty Licks não deixa de ter uma pegada legal, garantir boas seqüências e contemplar os verdadeiros hits, aqueles que podem não ser as melhores músicas, mas que todo mundo – até a Luciana Gimenez – conhece de cabo a rabo. Esse aí é fiel: me acompanhou em muitas viagens (em casa, só tenho dois humildes discos dos Stones, o 12×5 e o December’s Children) de tal forma que a ótima seqüência She’s a Rainbow-Get Off Of My Cloud-Wild Horses me remete imediatamente a um temporal na Serra do Mar voltando de Ubatuba no verão de 2003.
7º Aerosmith – Big Ones
Lançada em 1994, Big Ones (Geffen) é um clássico dos anos 90, mesmo não sendo um disco oficial. A coletânea contabiliza três inéditas (Blind Man e Walk On Water, gravadas na turnê do Get a Grip, e Deuces Are Wild, do desenho Beavis and Butthead, lembram?) e os sucessos dos anos 80 e 90. Sim, os hits 80 e começo dos 90, excluindo a fase junkiest 70′s, que eu particularmente prefiro, mas que não foi incluída por questões contratuais: o disco é iniciativa da gravadora Geffen e, no início da carreira, o Aerosmith lançava seus álbuns pela Columbia – a Geffen só ‘assumiu’ a banda em 1987. Big Ones tem 5 músicas do Get a Grip (os clááássicos da dupla Alicia Silverstone-Liv Tyler Crazy e Cryin’, além de Livin’ on the Edge, Eat the Rich e Amazing), 4 do Pump e 3 do Permanent Vacation. Segunda coletânea mais vendida da história da banda, ela só perde pro Greatest Hits de 1980 (que, por sua vez, tem os clássicos dos anos 70 e um cover de Come Together dos Beatles). No Big Ones, já vemos um Aerosmith bastante diferente, recuperado da sombria fase do começo-meio dos anos 80, quando se afastaram dos palcos por causa do vício em cocaína. Do Led Zeppelin-de-garagem de outrora, a banda de Oklahoma tornou-se muito mais performática e com melodias mais fáceis. Tyler e Perry contaram, a partir do fim dos anos 80, com a ajuda de vários amigos compositores (Supa, Ballard, Vallance, Frederiksen…) nesta fase mais comercial. A capacidade incrível de transformar bonitas canções em hits e hinos épicos transmitidos à exaustão na MTV, fizeram do Aerosmith uma das coisas mais…mais americanas que já sugiram desde Bruce Springsteen. O Big Ones junta tudo numa coisa só. Maltratado e totalmente arranhado de tanto que o ouvi, era inevitável acompanhar as músicas lendo as letras no encarte. Porra, isso é bom demais!
6º Stevie Wonder – Love Songs: 20 Classic Hits
Stevie Wonder é aquele cara que eu mais conhecia por causa das piadinhas de cego no Casseta & Planeta, piadinhas cego em outros programas da TV que não o Casseta & Planeta e participações em “músicas de caridade” no melhor estilo We Are the World, cantando para alguma causa que provavelmente tivesse o dedo do Bob Geldof. Música? Ah, tinha aquela lá… E a outra lá, do filme. Que filme? Sei lá eu. Quando o carro do meu pai tocou aquele soul 60′s pela primeira vez, eu, nos meus tenros 15 anos, quis saber o que era. “Stevie Wonder.” Incrível, pensei. O cara é cego e toca aquela porra daquela gaita como ninguém. Faz umas melodias cabulosas. E o melhor: tudo na mesma época dos Beatles, que pra mim eram os deuses inapeláveis da música e só eles, exclusivamente eles, podiam ter feito música boa nos anos 60. Nada ver, hein? Depois eu conheci Zombies, Beach Boys, Captain Beefheart, Zappa, os manos do jazz e uma porrada de caras bons dos 60 pra baixo, e isso é pra outro post. Você que acha que o Jackson 5 é o suprassumo da Motown Records, é porque não conhece Little Stevie Wonder a fundo. O cegueta é demais. É muito soul, é muito funk. É um Marvin Gaye sem a córnea. É um early Michael Jackson sem perder a melanina. E olha que eu sou chato pra caralho com essa coisa de cover de música já consagrada. O gênio do Stevie Wonder foi lá e mandou bala – e acabou por estragar – Blowin’ in the Wind, do Dylan, e meteu bronca – aí acabou por fazer uma versão foda, bem groovada – de We Can Work It Out, deles, os Beatles. Nem por isso o disco deixa de ser genial. E é, é imensamente maravilhoso, coisa deu ficar ouvindo por horas a fio sem parar. I Was Made To Love Her e For Once In My Life – uma das músicas mais clássicas nessa merda de bola que a gente chama de Planeta Terra e que já foi gravada por Tony Bennet, the Temptations e Frank Sinatra – são os pontos altos do disco. Injustiça a minha. A sequencia boa do álbum, na verdade, é ele todo. E não é que eu esteja apaixonado momentaneamente por ele não, eu já ouço o disco há muito tempo. O fato dele nem constar na discografia original do cara é um detalhe. Esqueçam aquela coisa chata de I Just Called To Say I Love You e outras músicas que eu achei serem as únicas do mano Stevie. A fase 70, que é muito boa, fica de fora do Love Songs: 20 Classic Hits. Aqui é só 60, só. E o Bennet e o Sinatra que me desculpem. Mas For Once In My Life é muito melhor com o Stevie Motherfuckin Wonder.
Deuces Are Wild, trilha do The Beavis and Butthead Experience, e expoente dessa nova fase da banda norteamericana.
Ira! foi minha bandinha preferida da era pré-internet e ganhei o Big Ones no amigo secreto da sétima série. Eu era muito RoCKeIr@!
Ah, sei lá, acho coletânias muito úteis e quem não gosta dá o cu. Sempre quando eu não conheço uma banda, procuro a coletânia e vejo se é legal. Aí baixo os outros CDs. Mas caso a banda não tenha coletânia, tenho que jogar com a sorte. Por isso eu acho muito importante que, antes de tudo, antes de fazer musiquinha e discozinho por aí, a banda faça uma coletânia. Não importa se ainda não tem material, não quero saber, vai ter que fazer coletânia antes de tudo. Pronto
Ps. escrevi todas as ‘coletâneas’ com I. Parabéns, Universidade Metodista. Aprendi muito lá.