
Henry Fonda dissuade um a um, ameaçando-os com uma faca (não)
Um filme em preto-e-branco rodado nos anos 50, com a trama ambientada quase que unicamente numa sala de um Tribunal de Justiça, configurando a estreia de um ainda jovem e errante diretor e custando a bagatela total de US$350.00. Não tem cor, não tem carros velozes tampouco furiosos, não tem peitos nem explosões. Foi filmado em apenas dezessete dias. Dos 93 minutos da película, apenas 3 são fora da tal “sala do júri”. P#@$, como poderia alguém gostar de um filme antiquado e estático desses?
É simples, meu chapa. “Apenas” considerado pela IMDb o 23ª maior filme da história da sétima arte e mundialmente aclamado como um clássico do cinema norteamericano, Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men, 1957) está recheado de discussões mind-blowing e uma trama envolvente, a despeito, é claro, do baixo orçamento e da não-diversidade de cenários. Mas quem se importa? O filme, o primeiro do conceituado Sidney Lumet, nos suscita a discutir sobre a Justiça e o processo punitivo, além de flagrar os conflitos do comportamento humano na Justiça e no processo punitivo. Mas nem as artimanhas de Lumet fariam do filme a obra aclamada que é se um tal de Henry Foda Fonda não fosse o personagem principal. Ele, o homem-mito do cinema norteamericano, o avô da Bridget e pai da Jane Fonda, o pistoleiro de aluguel Frank, o cara que foi à II World War porque não queria ficar preso numa “guerra de mentirinha dentro dum estúdio”. Henry Fonda tomou pra si a incumbência de brilhar e brilhou; sua participação na produção do filme também pode ser notada – a primeira vez que se aventurou nesse negócio fora das telas também.
Pois vamos ao filme. A diferença gritante entre o modus operandi da Justiça nos EUA e no Brasil é uma das distinções mais evidentes aos olhos de quem vê 12 Angry Men e fica angustiado, surpreso com a maneira aparentemente simples com que esses caras “resolvem” coisa toda, não é? Pois, como sugere o mote do filme, “life is in their hands, and death is in their minds”, indeed. Nos Estados Unidos, o jurado é o dito mediador social, o porta-voz fiel da sociedade, para o bem ou para o mal. Doze pessoas absolutamente normais devem conduzir o réu – um garoto porto-riquenho, que eles sequer conhecem pesoalmente, e que matou o pai com um canivete – à punição máxima ou, até mesmo, devolvê-lo à sociedade como estivera antes: livre. Mas o veredito deles deve ser unânime, para que não haja o hung jury, o “júri travado”, ou seja, a impossibilidade de se convergirem todas as opiniões. E para que a absolvição ou execução seja legítima, é necessário a unanimidade, diz a Justiça. Na história de Lumet, cada um dos doze homens – que ali não têm nome, são identificados por números de 1 a 12 – carrega um estereótipo. Vindos de diferentes classes sociais e carregando consigo pré-conceitos ambíguos, mesquinhos e imputados por seus próprios valores morais, os cara se vêem com dificuldade para chegar ao bendito veredito final. Em sala fechada e sob um calor forte, apertava-lhes a vontade de ir pra casa e não perder mais tempo com um julgamento que, aparentemente, era óbvio – e apontava para a execução do réu na cadeira elétrica. Mas a condução da história consagra a atuação de Henry Fonda, um dos maiores atores que o Planeta já viu. Sem espaço nem orçamento para manobras cinematográficas, ficou em cima dele a responsabilidade de brilhar e dar dinâmica ao filme. Claro que a presença dos também consagrados Martin Balsam, Lee J. Cobb e E. G. Marshall ajuda, mas é o incansável jurado número 8 que aparece desde o início como a grande peça-chave da trama. Sujeito austero, arquiteto convicto, de personalidade forte e grande conhecimento da lei, o oitavo elemento dá consistência às ideias e incuta isso em seus colegas de júri que, um a um, vão cedendo à brilhante capacidade de convencimento do personagem de Fonda. O Number Eight é tão persuasivo que, quando menos se espera, você já está torcendo por ele. Se há contradições, ainda há inocência, claro. - Pra que decidir uma vida em cinco minutos?, afirmava. O bando de jurados desinteressados e divergentes agora eram pessoas convictas, certas em argumentar para o Juiz que o menino criminoso na verdade poderia muito bem não ser criminoso.
É bom deixar claro que esse tipo de júri também existe no Brasi, mas com algumas diferenças substanciais. Aqui são apenas sete membros, a votação é sigilosa e não há qualquer comunicação entre eles. O resultado não deve ser unânime e sim por maioria, diz a Justiça brasileira. Mas não é necessário ser bacharel formado na SanFran para concluir que a jurisprudência tupiniquim – detesto usar essa palavra – fica devendo no assunto. Privilegiamos vícios e burocracias e, ao não garantirmos comunicação plena entre os membros do júri, comprometemos o desenvolvimento da retórica interna. Consequentemente, o que se extrai da decisão dele é um veredito difuso e nocivamente heterogêneo, sem as “partes” encaixadas.
Discussões judiciais à parte, esse must-see de Lumet realça um de seus inconfundíveis traços para quem se interessa em conhecer a fundo os grandes diretores desse mundo. O diretor aposta na fórmula do confinamento de toda a trama em cima de um único evento, o “cinema-estático” que promove debates e acentua a qualidade dos diálogos. É um filme simples mas instigante, pobre de orçamento mas rico nas relações humanas, e que se passa em tempo quase integral num tribunal de Manhattan. Em se tratando de Lumet, nada diferente do que veríamos posteriormente, quase vinte anos depois com o premiadíssimo Um Dia de Cão (Dog’s Day Afternoon, 1974). A estrutura similar, toda ao redor de uma noite, perdurando o mesmo cenário por 99% da trama, viria a ser uma das marcas do cineasta da Filadélfia. Aliás, foram dois desses filmes que levaram Lumet a quatro indicações ao Oscar como Melhor Diretor. Além de 12 Angry Men e Dog’s Day Afternoon, Network (1976) e The Veredict (1982) também inflaram o ego de Sidney Lumet, levando-o à indicação mais gloriosa que um cineasta pode receber.
Analisado tudo isso, você pode assistir 12 Angry Men sem medo ou pudor. Se você sentir sua vista cansada ou notar suas pálpebras querendo cerrar a qualquer custo, lembre-se: se a Justiça, bela e impávida, não se faz em cinco minutos, um bom filme também não se aprecia assim. Enjoy Fonda!
Então não vou ver.
Beijos
Eu te amo.