stop the plague!

Sueisfine

Publicado em existencialismo por felipe castro em 15 Fevereiro, 2009

Nick Drake gravou apenas 3 discos em sua breve carreira. A voz ora grossa ora fina, mas sempre suave, e seu dedilhado pulsante em afinações violonísticas nada ortodoxas eram suas características mais fortes. Era diferenciado, todos sabiam. Menos seus contemporâneos. Certa vez, em um surto com o o produtor Joe Boyd, argumentou:

- Você disse que eu sou gênio, então por que não sou rico nem famoso?

A obra de Drake era tão incrível que custou muito para que fosse devidamente alardeada. Pink Moon, seu último suspiro, foi gravado em 1972, apenas em violão e voz, com Drake irradiando alma e transpiração, um desabafo claro e agonizante como quem diz: “Isso aqui sou eu, eu e meu violão. No meu estado mais puro, bruto, então por que não compram a porra do meu disco?”

Sua última música, “Black-Eyed Dog“, foi escrita sobre Winston Churchill. A mesma “Black-Eyed Dog” que foi, décadas e décadas mais tarde, relembrada por Heath Ledger em seu vídeo-homenagem à Drake, meses antes do hollywoodiano se matar, assim como seu homenageado fez 34 anos antes.

Heath Ledger protagonizou Im Not There, sobre a vida de um controverso Bob Dylan, mas queria mesmo interpretar Nick Drake (direita) na telona

Heath Ledger protagonizou "I'm Not There", sobre a vida de um controverso Bob Dylan, mas queria mesmo interpretar Nick Drake (direita) na telona

Em comum, a depressão que afetava a todos os três. E só. Até porque não compartilhavam a mesma profissão, muito menos eram contemporâneos entre si. Churchil, estadista dos mais emblemáticos, exemplo clássico de gentleman britânico, diplomata ativo na II Guerra e que viveu na primeira metade do século passado – e ainda empresta seu nome à avenida dos Três Postos em São Bernardo. O outro, cantor, violonista inventivo, compositor de letras profundas, tristes e apaixonantes, que falavam do campo, das colinas e da Inglaterra. Mas Drake viveu dos anos 40 aos 70, matando-se precocemente num dos episódios mais silenciosos da história da música. Já Ledger nasceu 5 anos depois da morte de Nick, na exótica Austrália e fez grande carreira num meio onde desfilam atores e diretores, figurantes e figurinistas, cineastas e entusiastas, gente rica e bonita de todo jeito, todos milionários, pomposos e principalmente alegres e radiantes: A Hollywood como vemos da TV. Mas, os dois últimos têm muito mais em comum do que podemos imaginar.

Relacionar e comparar figuras midiáticas que terminaram da mesma forma trágica é algo curioso que vai, aos poucos, desmistificando um quebra-cabeça antigo do mundo da arte; a não ser por Churchill, que era depressivo mas não terminou arrancando a própria vida (porém influenciou outro estadista que teve a mesma brilhante ideia a fim de abotoar o paletó de madeira: nosso Getulio Vargas), os outros dois supracitados compõem um panteão sagrado e infinito de cantores, músicos, atores, pintores e demais figuras que cometeram o terrível ato que, segundo Tomás de Aquino, representa a “maior afronta a Deus, que dá a vida e o direito de determinar quando ela termina”: estamos falando, é claro, do suicídio.

“Saio da vida para entrar para a história” (VARGAS, Getúlio) e “Eu espero morrer antes de ficar velho” (TOWNSHEND, Pete) são alguns dos lemas, sentenças definitivas e possíveis epitáfios mundo a fora que inspiraram nossos auto-flageladores. No rock’n roll das drogas e exageros, a morte quase que instantânea do trio Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin também começou a construir o mito do “suicídio artístico”. Nesses casos, houve overdose mas não se configurou suicídio em nenhum deles.

Há ainda o célebre caso de Ian Curtis, ex-vocalista do Joy Division. Curtis desde cedo corroborava o ideal roqueiro-radical de Townshend. Pessoas próximas afirmavam que sempre lhe apeteceu a ideia de morrer jovem. E assim o fez. Sempre foi uma criança problemática e carregou consigo alguns dos distúrbios e insucessos para a vida adulta. Não resistiu muito. Curioso, porém, é observar que, das cinzas de Curtis e de seu grupo, surgiu aquela que seria uma das mais inventivas e alegres bandas do movimento new wave dos anos 80: o New Order. Você certamente já ouviu algum remix de Blue Monday numa balada ou numa Energia 97 da vida ou alguma versão axé de Bizarre Love Triangle por aí e mal deve imaginar que o New Order veio, na verdade, dos restos de uma banda que tinha como líder uma figura controversa e altamente obscura. Que se matou acreditando no mito do herói morto.

Os célebres pintores Vincent van Gogh e Frida Kahlo, o escritor Ernest Hemingway, o nosso ex-presidente bipolar (ou seja, primeiro o Pai dos trabalhadores e depois Pai do Estado Novo, a Ditadura que ainda não era militar) Getúlio Vargas, todos eles tinham alguma coisa em comum. O aspecto genioso, impassível, algo de revolucionário e conturbado em suas mentes. O não-êxito ou o excesso. A vida privada invadida, a figura de superstar que não suportavam. A amargura e a infelicidade pessoal. A depressão, megalomania. Um misto de tudo isso ou só algo disso.

Heath Ledger, aquele ator que fez Batman, I’m Not There e Brokeback Mountain num intervalo de 3 anos, estava ainda desfrutando dos louros de seus aclamados filmes quando foi encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, com 28 anos, uma carreira na crista da onda e pílulas para dormir deixadas no criado-mudo. A pneumonia foi diagnosticada na necropsia, mas, a hipótese de suicídio foi levantada e aceita por todos. A morte e a infelicidade do ator norte-americano até hoje ressoam e não encontram respostas à altura; Ledger era bem-sucedido, bem-quisto, boa-praça e todos os outros adjetivos insossos que começam com b e têm hífen que podemos imaginar. Mais do que isso: ele era bom, muito bom no que fazia. Mesmo sendo difícil, intempestivo, genioso. Uns dizem que a recepção hostil a seu personagem gay em Brokeback Mountain foi uma das causas. Hipótese ligeiramente descartada. Ledger estava infeliz e inquieto, por motivos que talvez nunca venhamos a descobrir. E nem é o principal propósito desse pobre e reles artigo.

O intrigante é o cárater estupidamente heróico e grosseiramente romântico que o suicídio toma em determinadas circunstâncias. Mas isso constitui um mito. Forte e antigo, o saudoso mito do suicídio, ou simplesmente da morte que eterniza o ídolo. Afinal, o que Kurt Cobain, morto em 1994, estaria fazendo hoje? Talvez gravando músicas para campanhas contra o câncer de mama ao lado de Billy Joe Armstrong, Barack Obama, Sheryl Crow e Roberta Miranda. Ou melhor, parafraseando algum amigo comunista/anti-comunista que todos nós temos: o que aconteceria se Che Guevara estivesse vivo até hoje e Fidel Castro tivesse sucumbido em alguma guerrilha mal-sucedida na América Latina nos anos 70? Talvez a figura mais estampada em camisas no mundo inteiro em todos os tempos seria a de Fidel e não Che. Hitler preferiu o suicídio a ser pego, aprisionado, torturado e humilhado pelos soviéticos assim que Berlim foi sitiada pelos aliados em 45. Tudo no campo da suposição, nada mais.  Seria uma inversão de valores, de ideias (agora sem acento), uma válvula de escape extremamente radical para se safar de insucessos na vida profissional e/ou possível incapacidade pessoal de lidar com a fama e o (não-)reconhecimento. Vamos abreviar a nossa vida e só conservar o que há de melhor, para as boas gerações terem lembranças boas de nós, ok?

E é assim que funciona. Por bem ou por mal. E adoramos, idolatramos, tudo de peito aberto. “A privação da vida é não um mal”, já dizia Montaigne, quotando algum filósofo pró-suicídio da Grécia Antiga. Ou é?


vídeo-homenagem do Ledger; de um suicida para outro