The Greatest Greatest Hits, parte I

Quem gosta bastante de música sabe bem: as coletâneas e os The Best Of não passam de notas de rodapé na carreira de um artista. Uma maneira fácil da gravadora conseguir uma grana rápida, tirando do ostracismo aquela banda morimbunda que passa por um hiato na carreira – ou tirando a si próprio da merda lançando um material sem consentimento do seu artista.

Mas nem sempre é assim. Alguns Greatest Hits da vida conseguem ser um pouco mais do que simples caça-níqueis e acabam marcando a vida dos fãs. Para mim, as compilações eram quase tudo que eu tinha a disposição para ouvir e formar o gosto musical catatônico que tenho hoje. A coleção devidamente catalogada do meu pai tinha 500 títulos e a maioria era proveniente das famosas baciadas das Americanas – ah, que saudades. Aquela porção de CDs a $9,90 era um prato cheio pra voltar pra casa com a sacola cheia de discos “diferentes”, fora até da discografia original do artista – mas quem se importava?

Eu peguei alguns desses CDs e listei aqui: o top 10 das coletâneas mais legais que já ouvi e marcaram minha vida. Alguns são materiais não-reconhecidos, ordinários, rejeitados pelos fãs, lançado sem o aval do artista. Não ligo, assim é até mais legal. Portanto, aqui não entram álbuns acústicos da MTV, live at Madison Square Garden ou Ao Vivo no Maracanã, discos póstumos com b-sides, nada disso. Só negócio nível Perfil e The Best Of. Olha aí:

10º Ira! – 2 é Demais!

Colocaram alguém no lugar do Nasi, é?

Começo por esse aqui, no melhor estilo “É fajuto, mas é legal”. Estive pesquisando e a nefasta e meio clandestina série 2 é Demais! não só lançou o Ira! como também os comparsas do Ultraje a Rigor e o Oswaldo Montenegro (é, as séries brasileiras nunca se importaram muito com o fator “afinidade musical” entre seus artistas). Mas não foi nada não. Irracionalidade, na verdade, é vender o produto como Melhor do Ira! e não ser nada mais do que uma junção dos álbuns Mudança de Comportamento (1985, WEA) e Vivendo e Não Aprendendo (1986, WEA), tipo, um colado no outro. Ou seja, tem vários dos clássicos da banda, sim, aqueles que estão nos dois primeiros inéditos do Ira!. Tem Longe de Tudo, tem Núcleo Base, tem Tolices, tem Dias de Luta, tem a global Flores em Você, tem até as faixas ao vivo Gritos na Multidão e (a reacionária) Pobre Paulista. E nem a ordem das músicas a série 2 é Demais! fez questão de mudar. Será que o Psicoacústica, terceiro álbum da banda, também não merecia algumas representantes no tal do Melhor do Ira!? Claro que eu era novo e nem havia me tocado disso. Pensava que ali, diante das minhas mãos, estava a nata da banda paulistana. Que nada. O título podia ser Pague 1, Leve 2. Seria muito mais honesto. Mas eu sou mulhé de malandro né, curto ser enganado. Portanto, disco legal, dá pra curtir uma tarde…se você é besta e curte ouvir The Jam com sotaque paulistano. Opa

Os Paralamas do Sucesso – Arquivo

Arquivo tem canções dos álbuns de 83 a 89O Paralamas descobriu que poderia lançar uma compilação dos melhores hits e, com isso, apresentar uma música inédita abrindo o álbum. Iniciativa inédita até então, Arquivo (1990, EMI) é o disco laranjinha da banda, que começa com Caleidoscópio, a novidade. Vital e Sua Moto também aparece repaginada, num visual 90′s. Essas duas faixas destoam, em termos estritamente técnicos, das demais, remanescentes da fase guitarrinha-com-reverb-bateria-bem-marcada, característica inconfundível dos anos 80, ê anos 80. Disco bacana.

The Rolling Stones – Forty Licks

Citadel, No Expectations, Sister Morphine, You Got the Silver, Torn and Frayed, Love in Vain, Let it Loose, Rocks Off, Lady Jane, Back Street Girl, Jigsaw Puzzle, She’s So Cold… É interminável a lista de músicas que poderiam entrar mas não foram incluídas na aclamada coletânea Forty Licks (2002, Virgin). Se você é fã de Stones como eu, deve ter se lamentado pela ausência de algumas canções. É aquela coisa: banda muito boa não vai conseguir ter uma compilação à altura da grandiosidade de todos seus álbuns de estúdio. Faltou essa, faltou aquela. O que importa é que o Forty Licks não deixa de ter uma pegada legal, garantir boas seqüências e contemplar os verdadeiros hits, aqueles que podem não ser as melhores músicas, mas que todo mundo – até a Luciana Gimenez – conhece de cabo a rabo. Esse aí é fiel: me acompanhou em muitas viagens (em casa, só tenho dois humildes discos dos Stones, o 12×5 e o December’s Children) de tal forma que a ótima seqüência She’s a Rainbow-Get Off Of My Cloud-Wild Horses me remete imediatamente a um temporal na Serra do Mar voltando de Ubatuba no verão de 2003.

Aerosmith – Big Ones

Lançada em 1994, Big Ones (Geffen) é um clássico dos anos 90, mesmo não sendo um disco oficial. A coletânea contabiliza três inéditas (Blind Man e Walk On Water, gravadas na turnê do Get a Grip, e Deuces Are Wild, do desenho Beavis and Butthead, lembram?) e os sucessos dos anos 80 e 90. Sim, os hits 80 e começo dos 90, excluindo a fase junkiest 70′s, que eu particularmente prefiro, mas que não foi incluída por questões contratuais: o disco é iniciativa da gravadora Geffen e, no início da carreira, o Aerosmith lançava seus álbuns pela Columbia – a Geffen só ‘assumiu’ a banda em 1987. Big Ones tem 5 músicas do Get a Grip (os clááássicos da dupla Alicia Silverstone-Liv Tyler Crazy e Cryin’, além de Livin’ on the Edge, Eat the Rich e Amazing), 4 do Pump e 3 do Permanent Vacation. Segunda coletânea mais vendida da história da banda, ela só perde pro Greatest Hits de 1980 (que, por sua vez, tem os clássicos dos anos 70 e um cover de Come Together dos Beatles). No Big Ones, já vemos um Aerosmith bastante diferente, recuperado da sombria fase do começo-meio dos anos 80, quando se afastaram dos palcos por causa do vício em cocaína. Do Led Zeppelin-de-garagem de outrora, a banda de Oklahoma tornou-se muito mais performática e com melodias mais fáceis. Tyler e Perry contaram, a partir do fim dos anos 80, com a ajuda de vários amigos compositores (Supa, Ballard, Vallance, Frederiksen…) nesta fase mais comercial. A capacidade incrível de transformar bonitas canções em hits e hinos épicos transmitidos à exaustão na MTV, fizeram do Aerosmith uma das coisas mais…mais americanas que já sugiram desde Bruce Springsteen. O Big Ones junta tudo numa coisa só. Maltratado e totalmente arranhado de tanto que o ouvi, era inevitável acompanhar as músicas lendo as letras no encarte. Porra, isso é bom demais!

Stevie Wonder – Love Songs: 20 Classic Hits

Stevie Wonder é aquele cara que eu mais conhecia por causa das piadinhas de cego no Casseta & Planeta, piadinhas cego em outros programas da TV que não o Casseta & Planeta e participações em “músicas de caridade” no melhor estilo We Are the World, cantando para alguma causa que provavelmente tivesse o dedo do Bob Geldof. Música? Ah, tinha aquela lá… E a outra lá, do filme. Que filme? Sei lá eu. Quando o carro do meu pai tocou aquele soul 60′s pela primeira vez, eu, nos meus tenros 15 anos, quis saber o que era. “Stevie Wonder.” Incrível, pensei. O cara é cego e toca aquela porra daquela gaita como ninguém. Faz umas melodias cabulosas. E o melhor: tudo na mesma época dos Beatles, que pra mim eram os deuses inapeláveis da música e só eles, exclusivamente eles, podiam ter feito música boa nos anos 60. Nada ver, hein? Depois eu conheci Zombies, Beach Boys, Captain Beefheart, Zappa, os manos do jazz e uma porrada de caras bons dos 60 pra baixo, e isso é pra outro post. Você que acha que o Jackson 5 é o suprassumo da Motown Records, é porque não conhece Little Stevie Wonder a fundo. O cegueta é demais. É muito soul, é muito funk. É um Marvin Gaye sem a córnea. É um early Michael Jackson sem perder a melanina. E olha que eu sou chato pra caralho com essa coisa de cover de música já consagrada. O gênio do Stevie Wonder foi lá e mandou bala – e acabou por estragar – Blowin’ in the Wind, do Dylan, e meteu bronca – aí acabou por fazer uma versão foda, bem groovada – de We Can Work It Out, deles, os Beatles. Nem por isso o disco deixa de ser genial. E é, é imensamente maravilhoso, coisa deu ficar ouvindo por horas a fio sem parar. I Was Made To Love Her e For Once In My Life – uma das músicas mais clássicas nessa merda de bola que a gente chama de Planeta Terra e que já foi gravada por Tony Bennet, the Temptations e Frank Sinatra – são os pontos altos do disco. Injustiça a minha. A sequencia boa do álbum, na verdade, é ele todo. E não é que eu esteja apaixonado momentaneamente por ele não, eu já ouço o disco há muito tempo. O fato dele nem constar na discografia original do cara é um detalhe. Esqueçam aquela coisa chata de I Just Called To Say I Love You e outras músicas que eu achei serem as únicas do mano Stevie. A fase 70, que é muito boa, fica de fora do Love Songs: 20 Classic Hits. Aqui é só 60, só. E o Bennet e o Sinatra que me desculpem. Mas For Once In My Life é muito melhor com o Stevie Motherfuckin Wonder.

Deuces Are Wild, trilha do The Beavis and Butthead Experience, e expoente dessa nova fase da banda norteamericana.

Henry Fonda manja

Henry Fonda dissuade um a um, ameaçando-os com uma faca (não)

Um filme em preto-e-branco rodado nos anos 50, com a trama ambientada quase que unicamente numa sala de um Tribunal de Justiça, configurando a estreia de um ainda jovem e errante diretor e custando a bagatela total de US$350.00.  Não tem cor, não tem carros velozes tampouco furiosos, não tem peitos nem explosões. Foi filmado em apenas dezessete dias. Dos 93 minutos da película, apenas 3 são fora da tal “sala do júri”. P#@$, como poderia alguém gostar de um filme antiquado e estático desses?

É simples, meu chapa. “Apenas” considerado pela IMDb o 23ª maior filme da história da sétima arte e mundialmente aclamado como um clássico do cinema norteamericano, Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men, 1957) está recheado de discussões mind-blowing e uma trama envolvente, a despeito, é claro, do baixo orçamento e da não-diversidade de cenários.  Mas quem se importa? O filme, o primeiro do conceituado Sidney Lumet, nos suscita a discutir sobre a Justiça e o processo punitivo, além de flagrar os conflitos do comportamento humano na Justiça e no processo punitivo. Mas nem as artimanhas de Lumet fariam do filme a obra aclamada que é se um tal de Henry Foda Fonda não fosse o personagem principal. Ele, o homem-mito do cinema norteamericano, o avô da Bridget e pai da Jane Fonda, o pistoleiro de aluguel Frank, o cara que foi à II World War porque não queria ficar preso numa “guerra de mentirinha dentro dum estúdio”. Henry Fonda tomou pra si a incumbência de brilhar e brilhou; sua participação na produção do filme também pode ser notada – a primeira vez que se aventurou nesse negócio fora das telas também.

Pois vamos ao filme. A diferença gritante entre o modus operandi da Justiça nos EUA e no Brasil é uma das distinções mais evidentes aos olhos de quem vê 12 Angry Men e fica angustiado, surpreso com a maneira aparentemente simples com que esses caras “resolvem” coisa toda, não é?  Pois, como sugere o mote do filme, “life is in their hands, and death is in their minds”, indeed. Nos Estados Unidos, o jurado é o dito mediador social, o porta-voz fiel da sociedade, para o bem ou para o mal. Doze pessoas absolutamente normais devem conduzir o réu – um garoto porto-riquenho, que eles sequer conhecem pesoalmente, e que matou o pai com um canivete – à punição máxima ou, até mesmo, devolvê-lo à sociedade como estivera antes: livre. Mas o veredito deles deve ser unânime, para que não haja o hung jury, o “júri travado”, ou seja, a impossibilidade de se convergirem todas as opiniões. E para que a absolvição ou execução seja legítima, é necessário a unanimidade, diz a Justiça. Na história de Lumet, cada um dos doze homens – que ali não têm nome, são identificados por números de 1 a 12 – carrega um estereótipo. Vindos de diferentes classes sociais e carregando consigo pré-conceitos ambíguos, mesquinhos e imputados por seus próprios valores morais, os cara se vêem com dificuldade para chegar ao bendito veredito final. Em sala fechada e sob um calor forte, apertava-lhes a vontade de ir pra casa e não perder mais tempo com um julgamento que, aparentemente, era óbvio – e apontava para a execução do réu na cadeira elétrica. Mas a condução da história consagra a atuação de Henry Fonda, um dos maiores atores que o Planeta já viu. Sem espaço nem orçamento para manobras cinematográficas, ficou em cima dele a responsabilidade de brilhar e dar dinâmica ao filme. Claro que a presença dos também consagrados Martin Balsam, Lee J. Cobb e E. G. Marshall ajuda, mas é o incansável jurado número 8 que aparece desde o início como a grande peça-chave da trama. Sujeito austero, arquiteto convicto, de personalidade forte e grande conhecimento da lei, o oitavo elemento dá consistência às ideias e incuta isso em seus colegas de júri que, um a um, vão cedendo à brilhante capacidade de convencimento do personagem de Fonda. O Number Eight é tão persuasivo que, quando menos se espera, você já está torcendo por ele.  Se há contradições, ainda há inocência, claro.  - Pra que decidir uma vida em cinco minutos?, afirmava. O bando de jurados desinteressados e divergentes agora eram pessoas convictas, certas em argumentar para o Juiz que o menino criminoso na verdade poderia muito bem não ser criminoso.

É bom deixar claro que esse tipo de júri também existe no Brasi, mas com algumas diferenças substanciais. Aqui são apenas sete membros, a votação é sigilosa e não há qualquer comunicação entre eles. O resultado não deve ser unânime e sim por maioria, diz a Justiça brasileira. Mas não é necessário ser bacharel formado na SanFran para concluir que a jurisprudência tupiniquim – detesto usar essa palavra – fica devendo no assunto. Privilegiamos vícios e burocracias e, ao não garantirmos comunicação plena entre os membros do júri, comprometemos o desenvolvimento da retórica interna. Consequentemente, o que se extrai da decisão dele é um veredito difuso e nocivamente heterogêneo, sem as “partes” encaixadas.

Discussões judiciais à parte, esse must-see de Lumet realça um de seus inconfundíveis traços para quem se interessa em conhecer a fundo os grandes diretores desse mundo. O diretor aposta na fórmula do confinamento de toda a trama em cima de um único evento, o “cinema-estático” que promove debates e acentua a qualidade dos diálogos. É um filme simples mas instigante, pobre de orçamento mas rico nas relações humanas, e que se passa em tempo quase integral num tribunal de Manhattan. Em se tratando de Lumet, nada diferente do que veríamos posteriormente, quase vinte anos depois com o premiadíssimo Um Dia de Cão (Dog’s Day Afternoon, 1974). A estrutura similar, toda ao redor de uma noite, perdurando o mesmo cenário por 99% da trama, viria a ser uma das marcas do cineasta da Filadélfia. Aliás, foram dois desses filmes que levaram Lumet a quatro indicações ao Oscar como Melhor Diretor. Além de 12 Angry Men e Dog’s Day Afternoon, Network (1976) e The Veredict (1982) também inflaram o ego de Sidney Lumet, levando-o à indicação mais gloriosa que um cineasta pode receber.

Analisado tudo isso, você pode assistir 12 Angry Men sem medo ou pudor. Se você sentir sua vista cansada ou notar suas pálpebras querendo cerrar a qualquer custo, lembre-se:  se a Justiça, bela e impávida, não se faz em cinco minutos, um bom filme também não se aprecia assim. Enjoy Fonda!

Camilla’s Big Score

Entre calhamaços de informativos imobiliários distribuídos na esquina com a Augusta e o buzinaço, que me leva a crer que esta manhã de sexta-feira de sol setembrina será bem movimentada, penso cá com meus botões se a jornalista Camilla Feltrin estará disponível para atender a reportagem de piauí logo às 7h30. “Não sou de desmarcar compromissos”, afirmara ela noite anterior. Nitidamente assustado com o trânsito que se densificava no momento, resolvi aderir à pontualidade britânica para evitar qualquer descompasso entre nossos acordos. Consegui me dirigir até a altura do número 200 da Alameda Santos rigorosamente no horário marcado. Tinha alguns minutos para me assegurar sobre qual dos prédios era o da jornalista, pensei. Com um gosto pelo suburbano, “como quando moramos em albergues em NY”, ela e o maridão, o colega de profissão Felipe Castro, resolveram, há 5 anos, se estabelecer na rua que é paralela à avenida Paulista, ali no coração cultural da capital paulista. Mas os prédios não chamavam atenção. Em vias de ser pintado, a parede cinzenta-primitiva de um deles mostrava que, naquela região classuda e vigorosamente elegante, a despeito do nome (conjunto Castel du Chambussy), os prédios onde moravam não eram como seus congêneres. Eram edifícios diferentes, meros coadjuvantes dos arranha-céus que saltavam da Paulista, pequenos, mirrados, tímidos. Eram uns dois blocos ou três, apartamentos que não passam dos 100km², não mais do que seis andares. Subi apressadamente as escadas rumo ao terceiro piso para ir de encontro à personagem do Perfil de setembro. Camilla tinha uma agenda atarefada e a janela das 7h30 às 8h15 era o único horário disponível em meses. Mas tão logo, nesse meio-tempo das escadas – o elevador estava encalhado no térreo – já pensei em me explicar para o leitor da piauí. Seria isso necessário? Talvez não, mas talvez sim. Afinal, porque um prólogo tão grande sobre a entrevista de uma… colega jornalista? O que levaria Camilla Ramos Feltrin ao posto privilegioso de receber atenção de nossa reportagem e de tantas outras revistas, sites e publicações dessa forma, e no intervalo de uma semana ou duas? Num país sedento pela valorização do escrupuloso, onde BBBs e artistas andrógenos viram capa de revista a todo instante, uma jornalista de política do Diario de S. Paulo não chamaria a atenção de ninguém. Mas não tinha como ser. O que estava por trás da pequena loira de 1,70 e olhos castanhos claros (“ora eles estão verdes, segundo meu marido”) que, à primeira vista, não despertaria interesse algum do público, inclusive ferindo os preceitos éticos da profissão, onde um não entrevista e busca fonte no outro? Pois Camilla roubou a cena na última e derradeira questão dos jornalistas no também último e derradeiro debate presidencial promovido pela Rede Globo no último dia 12. Ela abordou Rafael Daniel (PMDB-PT-PSB) quando a disputa televisiva já dava claras mostras de que o candidato da situação estava saindo por cima. A repórter questionou, altiva e cheia de sabedoria, sobre as tidas falcatruas interpartidárias envolvendo o nebuloso assassinato do pai em 2002, o ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, e como os principais suspeitos pela morte dele estavam diretamente ligados à promoção eleitoral de Rafael. “Ali ele respirou fundo e desmanchou.” De fato, o até então líder das pesquisas para a sucessão presidencial sofreu um baque, de imediato. Ainda ontem, na última parcial revelada pelo Instituto Datafolha, Rafael Daniel figurava com 23 pontos percentuais, muito abaixo dos 30 apresentados na parcial anterior – ao debate. O crescimento de Aécio Neves (PSDB) também era latente. Dos tímidos 15 pontos percentuais, o mineiro subiu para 20. Efeito debate? Efeito Camilla. Tão logo bati na porta da casa da loira e já fomos falando do assunto, assim, rapidamente, como se já nos conhecêssemos antes. Ela estava lá, já vestida em social, num visual que me confundiu; estaria ela apressada ou só havia antecipado o ritual da troca de roupas antes deu chegar, antevendo uma longa entrevista pela frente? Pôs-se a falar:

- Como andreense que sou (nota: Camilla, nasceu na Vila Linda, em Santo André, e se recorda, aos 10 anos, da morte do ex-prefeito Celso Daniel), me senti na obrigação de levantar no debate mais decisivo aquele fato que ficou meio para nós. Talvez o Brasil não se importe tanto, mas pra quem é da cidade, aquilo ainda é nebuloso. Acho que fiz bem – diz, com brilho nos olhos.

Mas ela garante que não tem preferências políticas nem pelo conterrâneo Rafael Daniel, nem pelo rival tucano, o mais popular nas pesquisas do segundo turno para 2022, Aécio Neves. “Fui apenas uma jornalista que contestou em rede nacional, só isso.” Passados quatro dias do ensejo político, ela já recebeu sondagens de outros jornais, conta. Folha, Estadão, revistas semanais diversas. “Na Veja eu não trabalho”, afirma sorrindo, sem ironias. “Culpa do Felipe, que sempre me fez a cabeça.” Perguntei se ele era o único homem que fazia sua cabeça. Camilla não perdeu tempo. “Sem dúvidas.” Voltando ao tema político, epicentro de nossa conversa, para colocar de volta em órbita os olhos apaixonados da jornalista, foram necessáris apenas cinco minutos para que meus pensamentos se dispersassem novamente. Na medida em que minha retina corria a prateleira do apartamento do casal Camilla e Felipe, tirei daí a quebra de assunto que procurava para mudar o tom da entrevista. Um vinil enorme reluzia no meio da parede toda colorida e cheia de artigos de colecionador. Era um exemplar original de “Goo” em forma de vinil, disco da banda americana Sonic Youth, que encerrou suas atividades há pouco mais de 6 anos. “Está vendo esse disco? Ele é de 1990, um ano antes deu nascer. Conseguimos esse autógrafo aqui, direto da Kim. Estará guardado para sempre”, conta Camilla, muito orgulhosa. Kim é como ela chama, quase como uma amiga íntima, a baixista da banda, Kim Gordon, que morreu em 2018, vítima de um câncer no colo do útero. “Quando eu e o Felipe fizemos uma cobertura juntas de um festival de música, nós a conhecemos junto do resto da banda, que é, inclusive, a grande banda (Sonic Youth) da minha vida e do Felipe. Isso desde sempre, desde que nos conhecemos. Aí foi fácil conseguir a proeza.” Mais uma deixa da jornalista para que, em outros tempos, acusassem de indiscutível improbidade amorosa dentro de serviço. Eles trabalharam juntos, como mar Pensei de imediato. Meu segundo pensamento não se segurou e disparei: “Vocês se conheceram no Portal do Terra?” Ao que Camilla se aprontou a responder, com um sorriso no rosto. “Não não. Veja só, nossa história é de 2009, quando nos conhecemos ainda na faculdade, em São Bernardo.” A loira se prontificou a falar sobre a carreira do marido, sem o escriba ao menos perguntar, e fez questão de reparar que o único momento em que trabalharam juntos foi justamente no portal de internet, “por apenas um ano”. Ela conta que Felipe não está presente no apartamento porque partiu em viagem pelo Leste Europeu produzindo uma reportagem para a rádio BBC-Brasil. “Ele disse que iria trazer lembranças do Islã direto da Bósnia,” conta ela, para logo desmentir. “Não sou muçulmana, só gosto de souvenirs.” Quando a conversa parecia que iria voltar ao normal e os discos já não interessavam tanto, perguntei a respeito dos entraves políticos sobre as quais ela havia escrito em seu blog, no último dia 13. “Rafael x Alércios e as mentiras partidárias”, era o título do post. Sorrateira e economizando adjetivos, ela só disse que achava necessário mostrar a verdade a respeito de uma disputa presidencial tão “sem carisma” segundo ela, “a mais “sem carisma” desde 2010″. Visivelmente desestimulada a falar sobre o assunto, antes de mudar o tom da conversa notei a presença de um pequeno ser, vindo de encontro a mim – um estranho no ninho (CONTINUA…)

24 de Setembro de 2022.

Tostão Moura.

Sueisfine

Nick Drake gravou apenas três discos. Dono de uma voz meio grossa e ao mesmo tempo suave, ele era um cantor inglês de folk, mas não um qualquer. Era um exímio violonista, abusava das afinações mais esquisitas. Era diferenciado, todos sabiam. Menos seus contemporâneos. Durante uma briga com o produtor Joe Boyd, argumentou:

- Você disse que eu sou gênio, então por que não sou rico nem famoso?

A obra de Drake era tão incrível que custou muito para que fosse devidamente respeitada. Pink Moon, seu último suspiro, foi gravado em 1972, apenas em violão e voz, com Drake inspirado e visivelmente emocionado. Parecia que cada verso queria dizer, de uma forma leve e grosseira: “Esse aqui sou eu, eu e meu violão. Estou aqui transbordando lágrimas, então por que não compram a porra do meu disco?”

Sua última música, “Black-Eyed Dog“, foi escrita sobre Winston Churchill. A mesma “Black-Eyed Dog” que ,décadas e décadas mais tarde, foi relembrada por Heath Ledger em seu vídeo-homenagem à Drake, meses antes do hollywoodiano se matar, assim como seu homenageado fez 34 anos antes.

Heath Ledger protagonizou Im Not There, sobre a vida de um controverso Bob Dylan, mas queria mesmo interpretar Nick Drake (direita) na telona

Heath Ledger protagonizou "I'm Not There", sobre a vida de um controverso Bob Dylan, mas queria mesmo interpretar Nick Drake (direita) na telona

Em comum, a depressão que afetava a todos os três. E só. Até porque não eram da mesma profissão, também nem foram contemporâneos entre si. Churchil, nós conhecemos. Estadista dos mais emblemáticos, exemplo clássico de gentleman britânico, diplomata ativo na II Guerra e que viveu na primeira metade do século passado. O outro, cantor, violonista inventivo, compositor de letras profundas, tristes e apaixonantes, que falavam do campo, das colinas e da Inglaterra. Mas Drake viveu dos anos 40 aos 70, tirando a própria vida de forma precoce, num dos episódios mais silenciosos da história da música. Já Ledger nasceu 5 anos depois da morte de Nick, na  Austrália e fez grande carreira num meio onde desfilam atores e diretores, gente rica e bonita de todo jeito, todos milionários e radiantes: a Hollywood como vemos da TV. Mas, os dois últimos têm muito mais em comum do que podemos imaginar.

Relacionar e comparar figuras midiáticas que terminaram da mesma forma trágica é algo curioso que vai aos poucos desmistificando um quebra-cabeça antigo do mundo da arte; a não ser por Churchill, que era depressivo mas não terminou arrancando a própria vida (porém influenciou outro estadista que teve a mesma brilhante ideia a fim de abotoar o paletó de madeira: nosso Getulio Vargas), os outros dois supracitados compõem um panteão sagrado e infinito de cantores, músicos, atores, pintores e demais figuras que cometeram o terrível ato que, segundo Tomás de Aquino, representa a “maior afronta a Deus, que dá a vida e o direito de determinar quando ela termina”:  é claro que é o suicídio.

“Saio da vida para entrar para a história”, frase de Getúlio e “Eu espero morrer antes de ficar velho”, do Townshend, do Who, são alguns dos lemas, sentenças definitivas e possíveis epitáfios mundo a fora que inspiraram nossos auto-flageladores. No rock’n roll das drogas e exageros, a morte quase que instantânea do trio Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin também começou a construir aos poucos o mito do “suicídio artístico”. Nesses casos, houve overdose mas não se configurou suicídio em nenhum deles.

Mais célebre ainda é o caso de Ian Curtis, ex-vocalista do Joy Division. Curtis desde cedo corroborava o ideal roqueiro-radical de Townshend. Pessoas próximas afirmavam que ele sempre curtiu muito a ideia de morrer jovem. E assim o fez. Criança problemática toda vida, Curtis carregou consigo alguns dos distúrbios e insucessos para a vida adulta. Não resistiu muito. Curioso, porém, é observar que, das cinzas de Curtis e de seu grupo, surgiu aquela que seria uma das mais inventivas e alegres bandas do movimento new wave dos anos 80: o New Order. Você certamente já ouviu algum remix de Blue Monday numa balada ou numa Energia 97 da vida ou alguma versão axé de Bizarre Love Triangle por aí e mal deve imaginar que o New Order veio, na verdade, dos restos de uma banda que tinha como líder uma figura controversa e altamente obscura. Que se matou acreditando no mito do herói morto.

Os célebres pintores Vincent van Gogh e Frida Kahlo, o escritor Ernest Hemingway, o nosso ex-presidente bipolar (ou seja, primeiro o Pai dos trabalhadores e depois Pai do Estado Novo, a Ditadura que ainda não era militar) Getúlio Vargas, todos eles tinham alguma coisa em comum. O aspecto genioso, impassível, algo de revolucionário e conturbado em suas mentes. O não-êxito ou o excesso. A vida privada invadida, a figura de superstar que não suportavam. A amargura e a infelicidade pessoal. A depressão, megalomania. Um misto de tudo isso ou só algo disso.

Heath Ledger, aquele ator que fez Batman, I’m Not There e Brokeback Mountain num intervalo de 3 anos, estava ainda desfrutando dos louros de seus aclamados filmes quando foi encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, com 28 anos, uma carreira na crista da onda e pílulas para dormir deixadas no criado-mudo. A pneumonia foi diagnosticada na necropsia, mas, a hipótese de suicídio foi levantada e aceita por todos. A morte e a infelicidade do ator norte-americano até hoje ressoam e não encontram respostas à altura; Ledger era bem-sucedido, bem-quisto, boa-praça e todos os outros adjetivos insossos que começam com b e têm hífen que podemos imaginar. Mais do que isso: ele era bom, muito bom no que fazia. Mesmo sendo difícil, intempestivo, genioso. Uns dizem que a recepção hostil a seu personagem gay em Brokeback Mountain foi uma das causas. Hipótese ligeiramente descartada. Ledger estava infeliz e inquieto, por motivos que talvez nunca venhamos a descobrir. E nem é o principal propósito desse pobre e reles artigo.

O intrigante é o cárater estupidamente heróico e grosseiramente romântico que o suicídio toma em determinadas circunstâncias. Mas isso constitui um mito. Forte e antigo, o saudoso mito do suicídio, ou simplesmente da morte que eterniza o ídolo. Afinal, o que Kurt Cobain, morto em 1994, estaria fazendo hoje? Talvez gravando músicas para campanhas contra o câncer de mama ao lado de Billy Joe Armstrong, Barack Obama, Sheryl Crow e Roberta Miranda. Ou melhor, parafraseando algum amigo comunista/anti-comunista que todos nós temos: o que aconteceria se Che Guevara estivesse vivo até hoje e Fidel Castro tivesse sucumbido em alguma guerrilha mal-sucedida na América Latina nos anos 70? Talvez a figura mais estampada em camisas no mundo inteiro em todos os tempos seria a de Fidel e não Che. Hitler preferiu o suicídio a ser pego, aprisionado, torturado e humilhado pelos soviéticos assim que Berlim foi sitiada pelos aliados em 45. Tudo no campo da suposição, nada mais.  Seria uma inversão de valores, de ideias (agora sem acento), uma válvula de escape extremamente radical para se safar de insucessos na vida profissional e/ou possível incapacidade pessoal de lidar com a fama e o (não-)reconhecimento. Vamos abreviar a nossa vida e só conservar o que há de melhor, para as boas gerações terem lembranças boas de nós, ok?

E é assim que funciona. Por bem ou por mal. E adoramos, idolatramos, tudo de peito aberto. “A privação da vida é não um mal”, já dizia Montaigne, quotando algum filósofo pró-suicídio da Grécia Antiga. Ou é?


vídeo-homenagem do Ledger; de um suicida para outro

Mapas corroem o meu cérebro

Minha alucinação por geografia é coisa antiga. Mas muito antiga e muito besta. Ainda pequeno, eu já me fechava no quarto pra bolar milhares de fórmulas e campeonatos envolvendo os times do meu país fictício, a Flândria,  e ainda inventava as cidades e os mapas da mesma nas últimas páginas dos cadernos da escola.  A paixão doentia foi se desenvolvendo. Lembro das viagens noturnas  de 10, 11 horas com a familia para Santa Catarina, quando vencia o sono à todo custo para ver a paisagem, as cidades, as placas. E lembro bem quando meu pai chegou dos Estados Unidos em 97 e trouxe consigo um CD-ROM.

Aí desandou a coisa. Tratava-se de uma espécie de atlas virtual, uma enciclopédia muito louca que enumerava os paises, suas capitais e principais características. A arara era o mascote do Brasil, se bem me lembro. Hahaha, não sei a quantas anda o tal CD, acho que sequer roda nos computadores de hoje. Os mapas-mundis também, eu tinha apreço. Tinha um em casa onde ainda constava a União Soviética. E os atlas em geral. Ah, claro, a Larousse, cuja coleção completei graças à assinatura da Folha em 99 (há uma década!). Quando me vi, tinha oito anos e já sabia até a capital da Ilha da Papua Nova Guiné do Caralho à Quatro.  De certa forma, eu era uma espécie de criança-prodígio (detestável isso) e podia ir ao Raul Gil, vejam vocês. Anos depois, com minha primeira nota vermelha, descubri que estava focando no segmento errado:

- 5,5 em Ciências. De que adiantam as capitais agora hein c%¨%$#?

Como se conhecimento adquirido tivesse limite de megabytes. Não, não é um HD sem partições, nem Geografia é um disco removível. Muito pelo contrário. A paixão pela área criou uma obsessão maluca por tudo à respeito. Mas uma obsessão mais adequada à realidade, digamos. Como quando fui para a Praia Grande pela primeira vez e passei horas no corredor do apartamento do Souza, grande companheiro, para ver e admirar um enorme mapa político do estado de São Paulo. Em vez de descer, ir à praia,  traçar umas mocreias, comer  um algodão doce (?); Feito um velho no museu, era eu diante de um mapa. Qualquer que fosse. Ou mesmo quando “descobri” o Google Maps e varei o dia sem durmir mesmo com uma prova no dia seguinte às 9 da manhã.

Mapa real de São Paulo

Mapa real de São Paulo

Os mapas criam grandes ilusões que são diariamente rechaçadas, esmagadas e reduzidas à pó pelo trânsito caótico nosso de cada dia, pela problemática malha urbana de transporte público. Veja bem: numa circunferência imaginária (tipo Tropico de Câncer, saca? Mas como uma esfera) de sei lá quantos kilometros (não muitos, agora me esqueci), você tem vários bairros “coexistindo”: Rudge Ramos, Taboão, Paulicéia (SBC),  Ipiranga (SP), Nova Gerty, Mauá (SCS), Canhema (Diadema), etc… Mas de que adianta a tal proximidade se a locomoção de carro entre alguns desses lugares é extremamente sofrível? De “coletivo”, pior ainda. É engraçado meu amigo Daniel ter que se submeter a fazer um “U” ao contrário (aquele sinal de intersecção que aprendemos em Matemática na sexta série) ao pegar ônibus-metrô-ônibus para vir de Cidade Ademar, zona sul de SP, para o Rudge Ramos. Se, de carro, Crazy Dani iria por Diadema economizando um bom tempo.

Mas a questão do trânsito não interessa aqui. É melhor tratar de coisas pouco repercutidas no mundo dos geófilos (que?): a questão das fronteiras. Sou inexplicavelmente alucinado por fronteiras municipais, estaduais, que sejam. Mesmo que elas estejam no meio do nada, como nas rodovias-no-meio-da-mata-atlântica. As placas que indicam limite de município “atraem” mais minha atenção do que as de velocidade máxima. É um acontecimento  ímpar  passar por uma delas. Um dia ainda vou conferir de perto o limite municipal entre São Paulo e Itanhaém, mesmo que essa fronteira provavelmente seja tão folclórica quanto o Acre e o Ronaldo, seja totalmente inacessível e resguardada em toda sua extensão por reservas ambientais e tribos cujos homens já usam calções da Adidas.

Lembro-me bem de uma reportagem que marcou minha vida há anos: falava sobre a Tríplice Fronteira ali perto de Foz do Iguaçu. Brasil, Paraguai e Argentina lado a lado. Você dá um passo pra lá. “ARGENTINA ÔE”, depois outro e “PARAGUAY ACÁ”. Então você, estafado, volta À PÉ para o Brasil, que é LOGO ALI. Não é mágico? Seria melhor se não existissem as burocracias de fronteira. Guardinha, mureta, arame farpado, loiras efetuando o visto. p>

Nos meus rumos da vida, nas andanças diárias, me vejo diante de duas fronteiras tríplices, sendo Santo André elemento envolvido nas duas. Na primeira delas, meu simpático trajeto no “elétrico” Ferrazópolis – São Mateus passa pela estação Sonia Maria pouco depois de uma banca de frutas “TRÊS DIVISAS”. Dizem os  jesuítas que ali o trajeto do ônibus resvala em Mauá. E logo depois, uma curva leve à esquerda, deixa a Rua do Oratório pra trás e nos coloca na Adélia Chohfi, rumo à São Mateus,  São Paulo. O que há demais ali? Nada. Nada? Sim. E é exatamente isso que tira do sério.

Ali, meus caros, é um ponto importante. Não há nada que lembre essa  tripla divisa a não ser pela barraca de frutas e por uma guaritinha que a prefeitura de Santo André colocou ali. E é só. Mais nada. Sendo assim o mais interessante dessa convivência entre Santo André-Mauá-São Paulo acaba sendo o caminho sinuoso da famosa Rua do Oratório. Começando lá no Carrefour da Avenida do Estado, ela percorre o arrumadinho Parque das Nações, em Santo André, e seu simpático centrinho e a Igreja do Bonfim, para desembocar numa área maior e que simplesmente anda rente á divisa com São Paulo. Pois você lá está você na Oratório quando, à esquerda, do outro lado do córrego, já é possível ver uns 2 CÉUs (obras da Marta, certeza)

- São Paulo aqui já? KD ONIBUS COLORIDINHOS

Mas não. É só o fim de Santo André, ali no Pq. Novo Oratório, Jd. Ana Maria, pra ainda cair no terminal Sonia Maria, Mauá, antes de, efetivamente, adentrarmos em territórios paulistanos. É realmente uma coisa linda – contextualizem esse “linda”, ok? Um bom trecho da Rua do Oratório explora bem a diversidade limítrofe da região. Dá até pra ver bem a Fazenda da Juta com seus predinhos “belos” – agora é sincero mesmo – andando junto com o córrego e o “último suspiro” de Santo André.

Mas é voltando de São Mateus que passo por outra tríplice fronteira, dessa vez até mais importante (sim, pois se há Mauá no meio, não é necessariamente importante): a Fronteira Real do ABC. Ao chegar na Estação Santo André, pego o simpático 069, vulgo ônibus dos prazeres. Ostenta esse título por vários motivos: além de custar  a bagatela de 1,95,  e ter uma frota quase inteira de ônibus articulados (ou seja, pra você ficar em pé nele, hay que ser muito lento y burro), ele ainda cobre uma série de universidades, dando uma ar mais joVeM à seu montante de passageiros diários. O que isso significa? Que não precisa oferecer assento para ninguém. Haha, maldade, o fato é que aquele ônibus no horário de pico me leva em apenas meia hora para a faculdade, e é lotado de belas moças vestidas em trajes sociais. Mulher em so-ci-al. Precisa dizer mais algo?

No caminho, o único imprevisto é o Trevo da Vila Palmares. A Prefeitura de Santo André, sempre ela, está realizando uma obra ali. Não exatamente uma de suas obras faraônicas como a da av. Lions, mas uma de suas realizações que, invariavelmente, precisam de uma enorme placa para auto-divulgação barata. Uma obra que já se arrasta por alguns meses e causa um pequeno transtorno na entrada para a Rua Afonsina, já em SBC. O que acontece de tão surreal (ou not) é que o Trevo em obras faz o ônibus se deslocar à direita num local que, vejam só, já adentra aos domínios da Ilha de São Caetano do Sul.

Não me achem idiota. Eu REALMENTE acho genial o fato do ônibus, em apenas alguns metros, percorrer as três cidades da grande sopa de letrinhas suburbana, mesmo que a passagem por São Caetano seja meteórica, irrisória. É a MÍSTICA da TRÍPLICE FRONTEIRA. Não há absolutamente NADA no local que lembre essa coexistência (nem tão) pacífica entre A, B e C do ABC. Nem uma plaquinha. Individualmente, cada prefeitura lembra, à seu modo, que a cidade começa naquele ponto. Mas uma iniciativa conjunta, nada. Claro que não deixo transbordar emoção. Fico na minha. Só imaginando se mais algum maluco por geografia sente o mesmo que eu.

Valeu Google Maps!

Meow, kitties

Uma sinfonia exótica de violões. As vozes de fundo conspirando a favor do vento. Uma sensação alucinógena de acampamento, remetendo às colinas galesas de Gwynedd, à base de muito, mas muito ácido. Um Led Zeppelin III com quarenta e cinco vezes mais psicodelia. E sem gritinhos plantinianos. Uma overdose de cordas e sons acústicos que não cansam, pelo contrário, revigoram. Assim é Sung Tongs (Fat Cat Records, 2004), o “acústico-prodígio-de-inéditas” do Animal Collective.

Quando comecei minha empreitada collectiviana rumo ao Planeta Terra Festival – no qual eles se apresentarão no Indie Stage às 19h30 do dia 8 de Novembro – não podia imaginar que tanta coisa boa ainda passava sem esforço pela minha (não tão) rigorosa peneira musical. E perderia-os de vista por pouco, se não fosse pela curiosidade aguçada justamente às vésperas do festival. Ou seria falta de vergonha na cara? Passar batido por qualquer álbum do Animal Collective, em especial o Sung Tongs, álbum dos mais “assimilável” deles, seria um tiro no pé. Como consolo, poderia usar-me do fato de que tal disco contou apenas com 2 dos inúmeros membros do AC: Avey Tare e Panda Bear, e, exatamente por isso, sofreu com algum tipo resistência vinda de dentro da banda nos setlists de shows. Poderia falar também que a marca registrada do grupo em outros álbuns, a habitual e nada cordial batalha de distorções e nuances atípicas que só as guitarras do Animal Collective proporcionam, não se fizeram presente nesse álbum. Aqui elas tiram um descanso, são desplugadas e dão lugar à animadas percussões tribais, rústicos violões e, aí sim, orquestras malucas de vozes, outra marca inconfundível dessa banda que é a mais cosmopolita e miscigenada de todas – são membros de NYC, Washington e até, pasmem, Lisboa. O que certamente confere aos trabalhos do Collective uma enorme e saudável pluridade musical.

Mas não confundam: não se trata de world music ou algo do gênero, mas sim de um elaborado álbum de folk com elementos precisos de avant-garde, indie rock e experimentalismos diversos que fogem de qualquer tipo de rótulo. Sung Tongs, como nota-se logo nos primeiros trechos da faixa inicial, a bela Leaf House (This house is sad/Because he’s not/Tidy), é o quinto e mais exótico e despretensioso suspiro da melhor atração do Planeta Terra Festival.

Download: http://www.mediafire.com/download.php?mypdvtltycv

ouvindo Animal Collective – Kids on Holiday

Puta m

Por causa do Cersibon, resolvi criar algumas tirinhas também. Eis o resultado:



Se não entenderam, cliquem aqui.

Top Top Top

Listar elementos em ordem de importância é um vício antigo do homem. Data do início do século XVII quando Obina I já listava em seu Pergaminho do Gol quais gols garimpados no futebol de colônia, em meio à alucinante corrida pelo ouro em Minas, eram os mais bonitos e plásticos de sua carreira pré-Charles Miller. O uso de ranking, ou melhor, da palavra rank no inglês, está associado à hierarquia, seja no âmbito militar, eclesiástico ou escolar, sei lá. Com o tempo, essa noção de lista ou linhagem hierárquica foi enfraquecendo e englobando temas cada vez menos nobres, como as 50 celebridades de Hollywood que mais dobram a língua pra falar Thank you, pelo E! Entertainment Television. Hoje a maioria dessas listas que são publicadas mundo afora pecam ao não atingir nível aceitável de abrangência e/ou abusar de critérios duvidosos em qualquer que seja a área explorada; desde educação pública até cinema iraniano. Para driblar a sotisficação e rigidez das tradicionais e pretensiosas listas dos 100, 50 mais, vieram então os Top 10, Top 5. Simples, práticos, pessoais. Tão pessoais que qualquer blogueiro desprovido de conhecimento pode publicá-los sem medo de ser feliz.

Top 5 filmes

Dog Day Afternoon (1975) dir. Sidney Lumet [foto]
I’m Not There (2007) dir. Todd Haynes
A Clockwork Orange (1971) dir. Stanley Kubrick
Le Couperet (2005) dir. Costa-Gavras
Reservoir Dogs (1992) dir. Quentin Tarantino

Top 5 álbuns

Grace (1994) Jeff Buckley
Marquee Moon (1975) Television [foto]
Fear of Music (1978) Talking Heads
Rated R (2000) Queens of the Stone Age
It’s Not How Far You Fall, It’s The Way You Land (2007) Soulsavers

Top 5 radiohead songs
A Wolf at the Door
Dollars & Cents
Like Spinning Plates, ao vivo!
The Bends
Idioteque

Top 5 amores platônicos
Catherine Zeta-Jones
Audrey Tautou [foto]
Jennifer Connelly
Luisa Micheletti
Elisângela da Italínea (agradecimentos ao canal TV + ABC)

Top 5 pokemons de água

Tocando

Vergonha própria, mas beleza. Um dia isso seria necessário…

“Alô você”

Direto do dia 10 de Julho de 2007

Do’s And Dont’s With Babies





Mais aqui http://www.c00lstuff.com/1133/Do_s_and_don_ts_with_babies/

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